Quando o “ser” foi dividido em razão e sensibilidade, a história da razão a partir de então, foi a história da divisão.
A busca pelo indivisível
A ciência, como a própria palavra sugere, pode ser vontade de estar ciente: vontade de consciência, onde a razão busca a consciência assim como os sentidos buscam as sensações. O equilíbrio e a compensação dessas duas atividades entre si é capaz de gerar uma saúde de consciência, assim como do corpo. Mas a elevação da razão e sua hipertrofia levam à natural escassez de um sentido que a razão não tem. Isso porque não é próprio da razão possuir em si um sentido, como o olho que vê, como a pele que sente, a língua que prova; e isso é óbvio, pois a busca de sentidos na razão é completamente vã na medida em que, como próprio resultado da atrofia do mundo sensorial em detrimento da tirania racional, a razão alcança um estado em que acredita ser capaz de “sentir” em si mesma a própria existência.
Na história da divisão, o homem dividiu os objetos em átomos, a totalidade em palavras, infinito em números, eternidade em horas: criou a complexidade. Refiro-me à complexidade como um efeito resultante da disparidade, da disfunção, deste desequilíbrio entre as propriedades humanas (razão e sentido) onde toda criação da razão só encontra utilidade ao que concerne à razão. Situação tal que o homem nunca busca verdadeiramente o esclarecimento sensível das suas questões, porque ou está, ou se finge cego, surdo e com toda a pele coberta por um tecido morto, chamado razão. E assim sempre em vez de esclarecer, cria anexos e emendas com o propósito de contornar os problemas (sem perceber nisso a criação de novos). A razão que se esqueceu dos sentidos é essa que quer anteceder o próprio sentido prevendo o que possa sentir após uma conquista, mas muitas vezes – senão toda vez – se percebe equivocada quando os sentidos não correspondem às previsões. Por que não a carne viva? Mais penosa que a dor da ferida aberta, é a tentativa de conseguir, na diluição de toda dor, o esboço de um sorriso vazio.
Nesse meio, até a apaixonante arte surge necessariamente inevitável, nos atinge através dos sentidos de forma tão profundamente radical, mas ainda pontual. Pois após experiências artísticas sensíveis, alguns se perdem nelas, e muitos não freqüentam as sensações por muito tempo, ou submetem toda sensibilidade a uma minuciosa descrição racional, causando a perda do sentido. E sinto que esse impacto é assim tão forte porque é oposto ao que nos domina na maior parte do tempo (razão) e subsiste como pequenos mistérios que permeiam toda nossa vida em forma de atitudes e sensações que parecem inexplicáveis. Mas não há sensações para além da razão, porque todos os sentimentos encontram seu universo entre a razão e os sentidos.
Neste instante, peço que pare e lembre-se de sua sensibilidade; toque seu próprio corpo e perceba o corpo e o toque, observe o movimento de sua mão e lembre-se de que você o desejou, feche os olhos e sinta que percebe o próprio movimento através da visão e do tato. Se dê a liberdade (que de fato, você tem) de experimentar neste instante, uma metáfora tendo a fruta como objeto. Considere que a razão constitui o caroço (núcleo) e a sensibilidade constitui a casca e a carne da fruta. Deste modo, somente a casca e a carne entram em contato com a realidade, e o caroço recebe esse contato através da carne da fruta. O caroço é tão duro que parece indestrutível; não se afeta com a realidade enquanto a pele se arranha, a carne se amassa.
Na essência da metáfora, se o caroço pensasse em existir sem a carne e a casca, ele estaria negando todo seu contato com a realidade, e daria atenção somente à sua rigidez, e nada a toda sua superfície envolvente. Imagine então a razão; seus pensamentos e sua consciência, mas sem a audição, sem a visão, sem o tato, sem o paladar, sem o olfato: de que se valeriam os pensamentos e a consciência? Seriam ainda assim, consciência e pensamento? Não saberia de nada sobre o lado externo, ou até mesmo sobre o interno! E o que seria interno, sem externo?
Esse pensamento não pode parar por aqui porque devo ser fiel à mesma liberdade de pensamento que me trouxe até aqui, e penso sobre o inverso: o que seria do externo sem o interno? O que seria de todas as sensações, os sentidos, sem a razão? O que seria do som, da imagem, das texturas, dos sabores, do cheiro, sem o pensamento que percebe estas sensações? Talvez fosse como um espetáculo sem platéia, assim como o inverso (o que se assemelha ao que vivemos) seria uma platéia, sem espetáculo algum. Uma espera sem nada a ser esperado, porque na realidade o espetáculo é muito mais sutil do que parece, porque como tudo que é sutil, necessita de nós para que seja completo.
A existência se mostra como algo muito sutil: muito carente. Antes de qualquer coisa, carente de nós mesmos. E não devo seguir apenas pela sensibilidade, assim como não devo seguir apenas pela razão, devo seguir apenas pelo equilíbrio.
Matheus Martini










