[ a doença da razão ]

"O sono da razão produz monstros" - Ilustração de Francisco Goya

           Em cada dia, feio ou belo de um céu azul radiante ou acinzentado da vida em sociedade, o pouco que cada um não faz se aglutina pelos cantos, feito uma horrível secreção e pouco a pouco vão se formando poças gosmentas, até que de toda essa imundice emergem monstros terríveis. O mais estranho, porém, nota-se no hábito dos tipos que habitam as instalações destes grandes sistemas de geração de valores. Uma abominável ironia é o seu modo; aquele monstro e fantasma que vaga por todas as ruas não lhe causa nenhum desespero, espanto ou novidade, mas pode, em apenas um olhar desprotegido refletir o seu vazio aterrador ou revelar alguma expressão há muito evitada, e que teria potencial para lhe destroçar a vida.
           Mas o maior receio não seria o de encontrar uma criatura detestável, mas de perceber nela um espelho. Então, com uma indiferença hostil seguem estes pobres seres pela vida, ignorando os sinais que pavimentam seu caminho. Os sinais são sempre como espelhos que dizem muitas coisas sobre nós: quando se julga o feio, julga-se o que se tem de feio e quando se julga o belo, julga-se o que se tem de belo.
           Então, demonstrar coragem de encarar a horrível criatura pode ser muito perigoso e ameaçador; mais ameaçador por afastar os que são indiferentes a ela; mais perigoso por torná-lo corajoso, porque no calor que a coragem inspira habita um espantoso paradoxo. Muitos, senão a maioria, utiliza a concretização de suas atitudes como forma de desfazer-se delas. Poucos teriam a coragem de assumi-las para sempre, para a qualquer momento em que se voltasse a elas em pleno julgamento, correr o risco de encontrar em suas verdadeiras origens alguma secreção daquelas que já tivesse julgado por si como execrável.
           Seria a vaidade produto da busca por algo que esconda essa profunda miséria? De uma intenção de ocultar o canal por onde expele a sua secreta gosma monstruosa, produto silencioso e nocivo de suas atividades? Que quando penetra na intimidade do ser, faz ruína de sua alma. E então se servir dela como forma de desviar o destino desses detritos para que não retornem, forma muito delicada: ilusória. Eles sempre retornarão, ou nem mesmo deixarão sua origem. Bastaria a noção de já se encontrar cercado, e coragem para através dos sinais ser obrigado a encarar suas influências.
           Se a coragem se opõe tanto ao modo de vida neste sistema, é porque a covardia governa, e a arma da covardia é o medo. “O homem é condenado à liberdade”. Mas este homem, inspirado pelo medo e iludido pela segurança, foge de sua liberdade. Todo medo é medo de liberdade. O medo da pobreza é o de livrar-se da riqueza. O medo do conhecimento é de livrar-se da ignorância. O medo da doença é de livrar-se da saúde. O medo da dor é de livrar-se do prazer. O medo da solidão é de livrar-se das companhias. O medo da realidade é de livrar-se da ilusão. O medo da morte é de livrar-se da vida.

Matheus Martini

Sobre Matheus Martini

Nome: Matheus Martini Nativo de Santos - SP, Brasil. Ex-aluno de um curso de Propaganda e Marketing (não concluído) Com interesses por artes como música, pintura, desenho, escultura, poesia, filosofia e ciência. Ver todos os posts de Matheus Martini

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