[ pegadas na areia ]

            Chego à praia sozinho em um dia nublado, e ao alcançar com o olhar o cenário de minha infância e de grande parte da minha vida, sou tomado por uma forte emoção. Uma emoção que como a força da ressaca rompe as muralhas do meu corpo e que voa com a garça que vejo flutuar sobre o mar. Qualquer criança que vejo com os pais na beira do mar rasga um sorriso em meu rosto, de onde vertem lágrimas que se misturam ao mar. As crianças brincam e correm na direção do mar: que descoberta que é a vida! Penso sobre a vida, que eventual é a vida. Se há um destino comum para todos os homens e mulheres, é a morte.
           A morte se apresenta tão certa e impossível de ser contrariada. E contra isso a vida, quão carente de mim ela é, talvez não seja madura e decidida como a morte. Abriu meus olhos de criança pela primeira vez, como outra criança me chamando para brincar, me chamando para conhecer suas novidades. Estes somos nós, humanos, destinados a esta liberdade que desprezamos, liberdade inevitável que se não é compreendida durante a vida, se revela no fim da vida, como libertação da própria vida, como libertação até mesmo desses meus pensamentos.
           Escrevi na areia molhada. “DEMASIADO HUMANO”. Ficam ali palavras, e caminho para o lado oposto de olhos fechados pela imensidão da praia. Tudo é diferente com os olhos fechados; o som do mar parece mais forte, me diz de estou andando em linha reta, molha os meus pés e me ensina os seus limites, me transfere o seu movimento. A terra que caminho se molda aos meus passos, sinto como se com cada passo eu pudesse fazer a terra inteira girar. Retorno pelo mesmo caminho e a maré sobe; o mar apagou o que escrevi na areia.
           Talvez seja isso a vida, deixamos as pegadas na areia, escrevemos nossa vida na beira do mar, enquanto a maré sobe, e quem passou por ali absorveu da sua maneira o que escrevi, antes que a maré viesse recolher. Pouso um olhar sobre o mar sabendo que no final de meu turno poderei estar ali, diluído nas águas que algum dia eu dirigi olhar. Mas a morte só se revela para quem morre, não devo me precipitar sobre o tempo que virá após este evento derradeiro enquanto ainda vivo, enquanto o único tempo que sou capaz de perceber é este que atravessa minhas palavras.
            Quando chegar meu momento, seguirei com a inocência da criança que corre para dentro do mar, porque da mesma forma que a criança é nova para a vida, serei também novo para a morte. Hoje penso que nada pode ser possuído, por princípio, já que nem da vida temos posse, porque não podemos guardá-la em “algum recipiente”. Deverei por fim, devolver para a terra os elementos dela que se reuniram em mim, e que por um curto espaço de tempo, persistiram em me fazer existir.

Matheus Martini

Sobre Matheus Martini

Nome: Matheus Martini Nativo de Santos - SP, Brasil. Ex-aluno de um curso de Propaganda e Marketing (não concluído) Com interesses por artes como música, pintura, desenho, escultura, poesia, filosofia e ciência. Ver todos os posts de Matheus Martini

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