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Sobre Matheus Martini

Nome: Matheus Martini Nativo de Santos - SP, Brasil. Ex-aluno de um curso de Propaganda e Marketing (não concluído) Com interesses por artes como música, pintura, desenho, escultura, poesia, filosofia e ciência.

[ a cápsula da vida ]

It's a Shame about her Hand - Josh Jacobs (photographer)

           Somos humanos; pensamos e sentimos. Acreditamos porque queremos, se acreditar significa, antes de tudo, querer. E se acreditar é crer, dar crédito; o “crédito” que damos é nossa confiança, nossa vontade, nosso querer. Acreditar no que não se sabe ou no que não se sente só pode ser uma negação de nossas singulares condições humanas. Se algum “Deus” em algum momento nos tivesse dado a capacidade de “querer”, porque deveríamos retornar todo nosso querer a ele? Seria deus, Vaidoso? Seria o viver uma eterna redundância? Como Narciso se descobriu nas águas, teria Deus se descoberto no homem?
            E como poderíamos, com todo carinho, paixão e amor dedicar adoração a este “Deus” – que não conhecemos ou que não se revela, – enquanto sobra tanto espaço para detestar, repudiar ou se afastar dos homens e mulheres que nos são tão próximos e tão conhecíveis? Por que é dedicada tanta atenção e tanto esforço ao além, e tão pouco – senão nada – ao refinamento da percepção da realidade que nos concede diariamente a possibilidade de existir?
            Nietzsche diz que Deus está morto porque todos nós o matamos. Pude captar um dos sentidos deste pensamento no exemplo dos medicamentos, em que o homem não concede mais a “Deus” a confiança da cura, mas às cápsulas que contém substâncias invisíveis, nas quais dedicamos uma igual confiança de cura. Confia-se que na confecção daquela pequena cápsula foi empregado o conhecimento sobre o combate de bactérias invisíveis que causam determinados sintomas e prejuízos ao nosso organismo.
            Talvez o ponto que mereça mais atenção nem seja simplesmente o da confiança, mas o ponto em que há falta de contato direto e apurado com ambos, Deus ou bactérias invisíveis, e ainda assim se confia sem possuir meios de confirmar a completa eficácia de quaisquer métodos. É claro que a diferença básica entre “Deus” e bactérias, neste caso específico, é que as bactérias são visíveis quando constatadas através de instrumentos de laboratório enquanto Deus é encontrado na imaginação e nas palavras de religiosos, o que se faz muito mais subjetivo; mas isso não vem ao caso agora. O que a idéia pretende é que esse fenômeno todo parece indicar que um espaço que “Deus” ocupava na fé dos homens, agora é ocupado pela ciência.
            Pelo fato da ciência ser baseada em pesquisas e experiências reais, até parece que o homem do futuro deveria estar muito mais tranqüilo por entender e encontrar a cura para os microorganismos que ameaçam há muito tempo a sua saúde, mas de fato nada muda. O homem ainda estará fadado ao mesmo destino. Poderá adiar seu destino desta vez, ou outras vezes mais, mas na persistência dos sintomas poderá encontrar seu destino, ou talvez em algum instante inesperado, acidental. A busca que persiste é antiga, e pretende a cura para este destino tão temido. A “cápsula” que cura a morte.
            É neste ponto que entendo que as crenças permanecem mais firmes e confortáveis, porque elucidam sobre o que há para além desta experiência única e derradeira. Porque quando ela leva alguém, para os que ficam nada é esclarecido; a experiência de morte é reservada apenas para quem se vai. Para os que ficam, são deixadas recordações daquilo que foi e fez.
            O maior incômodo das religiões é o fato de se fixarem com mais firmeza nesta delicada curiosidade sobre o depois – assim como a um passado distante e enevoado, – dirigindo atenções e esforços para um além, enquanto deixa o presente abandonado e passivo a estes esforços e atenções. Se não podemos ter na lembrança uma vida anterior a esta, e tampouco a consciência plena de um além bem definido, como tudo isso poderia ter importância maior que o agora? No conformismo e comodismo que o pensamento no além oferece está uma perda de importância deste instante supremo que é a vida!
            Por que não nos permitimos pensar sobre qualquer coisa sem medo? Medo do que? Por que não dedicamos toda essa energia empregada no além para renovar sempre o nosso próprio modo de vida, que de fato é real, diário? Por que o além, e não o agora? Por que não nos permitimos experimentar outras formas de viver? Podemos lançar mão de toda evolução humana, que hoje se mostra mais tecnológica que humana, para evoluir de fato, o ser humano. Ou seja, para evoluir a condição humana em si; essa ordenação caótica e desigual instalada no mundo.
            Por que achamos que outra forma de vida seria impossível se não tentamos? Achamos que esta forma atual é a melhor que o homem desenvolveu até hoje? Por isso não tentamos? Quando nos ocorre algo neste modo de vida que nos desagrada profundamente, o que fazemos é nos esconder em crenças ou cultos do além? É assim que fugimos quando somos solicitados todos os dias a continuar vivendo? Passamos pela vida assim, como quem viaja em um trem olhando para o nada para não encarar ninguém, ou para não se perceber encarado?
            O único sentido que eu encontro quando penso em “Deus” é uma constante evolução, exatamente o que as religiões – com suas idéias absolutas enquanto não questionadas e o medo de pensar o “diferente” disseminado – estanca, condena e impede. Sem dúvida, nossa evolução espiritual está para além de definições, dogmas, temores e estagnação. Para além de idéias que se fecham em si mesmas como idéias estéreis. Idéias que morrem no corpo do pai, no útero da mãe, idéias abortivas. Que medíocre é a vida quando não se questiona, quando não se transforma, quando não é encarada como vida!

Matheus Martini


[ pegadas na areia ]

            Chego à praia sozinho em um dia nublado, e ao alcançar com o olhar o cenário de minha infância e de grande parte da minha vida, sou tomado por uma forte emoção. Uma emoção que como a força da ressaca rompe as muralhas do meu corpo e que voa com a garça que vejo flutuar sobre o mar. Qualquer criança que vejo com os pais na beira do mar rasga um sorriso em meu rosto, de onde vertem lágrimas que se misturam ao mar. As crianças brincam e correm na direção do mar: que descoberta que é a vida! Penso sobre a vida, que eventual é a vida. Se há um destino comum para todos os homens e mulheres, é a morte.
           A morte se apresenta tão certa e impossível de ser contrariada. E contra isso a vida, quão carente de mim ela é, talvez não seja madura e decidida como a morte. Abriu meus olhos de criança pela primeira vez, como outra criança me chamando para brincar, me chamando para conhecer suas novidades. Estes somos nós, humanos, destinados a esta liberdade que desprezamos, liberdade inevitável que se não é compreendida durante a vida, se revela no fim da vida, como libertação da própria vida, como libertação até mesmo desses meus pensamentos.
           Escrevi na areia molhada. “DEMASIADO HUMANO”. Ficam ali palavras, e caminho para o lado oposto de olhos fechados pela imensidão da praia. Tudo é diferente com os olhos fechados; o som do mar parece mais forte, me diz de estou andando em linha reta, molha os meus pés e me ensina os seus limites, me transfere o seu movimento. A terra que caminho se molda aos meus passos, sinto como se com cada passo eu pudesse fazer a terra inteira girar. Retorno pelo mesmo caminho e a maré sobe; o mar apagou o que escrevi na areia.
           Talvez seja isso a vida, deixamos as pegadas na areia, escrevemos nossa vida na beira do mar, enquanto a maré sobe, e quem passou por ali absorveu da sua maneira o que escrevi, antes que a maré viesse recolher. Pouso um olhar sobre o mar sabendo que no final de meu turno poderei estar ali, diluído nas águas que algum dia eu dirigi olhar. Mas a morte só se revela para quem morre, não devo me precipitar sobre o tempo que virá após este evento derradeiro enquanto ainda vivo, enquanto o único tempo que sou capaz de perceber é este que atravessa minhas palavras.
            Quando chegar meu momento, seguirei com a inocência da criança que corre para dentro do mar, porque da mesma forma que a criança é nova para a vida, serei também novo para a morte. Hoje penso que nada pode ser possuído, por princípio, já que nem da vida temos posse, porque não podemos guardá-la em “algum recipiente”. Deverei por fim, devolver para a terra os elementos dela que se reuniram em mim, e que por um curto espaço de tempo, persistiram em me fazer existir.

Matheus Martini


[ a doença da razão ]

"O sono da razão produz monstros" - Ilustração de Francisco Goya

           Em cada dia, feio ou belo de um céu azul radiante ou acinzentado da vida em sociedade, o pouco que cada um não faz se aglutina pelos cantos, feito uma horrível secreção e pouco a pouco vão se formando poças gosmentas, até que de toda essa imundice emergem monstros terríveis. O mais estranho, porém, nota-se no hábito dos tipos que habitam as instalações destes grandes sistemas de geração de valores. Uma abominável ironia é o seu modo; aquele monstro e fantasma que vaga por todas as ruas não lhe causa nenhum desespero, espanto ou novidade, mas pode, em apenas um olhar desprotegido refletir o seu vazio aterrador ou revelar alguma expressão há muito evitada, e que teria potencial para lhe destroçar a vida.
           Mas o maior receio não seria o de encontrar uma criatura detestável, mas de perceber nela um espelho. Então, com uma indiferença hostil seguem estes pobres seres pela vida, ignorando os sinais que pavimentam seu caminho. Os sinais são sempre como espelhos que dizem muitas coisas sobre nós: quando se julga o feio, julga-se o que se tem de feio e quando se julga o belo, julga-se o que se tem de belo.
           Então, demonstrar coragem de encarar a horrível criatura pode ser muito perigoso e ameaçador; mais ameaçador por afastar os que são indiferentes a ela; mais perigoso por torná-lo corajoso, porque no calor que a coragem inspira habita um espantoso paradoxo. Muitos, senão a maioria, utiliza a concretização de suas atitudes como forma de desfazer-se delas. Poucos teriam a coragem de assumi-las para sempre, para a qualquer momento em que se voltasse a elas em pleno julgamento, correr o risco de encontrar em suas verdadeiras origens alguma secreção daquelas que já tivesse julgado por si como execrável.
           Seria a vaidade produto da busca por algo que esconda essa profunda miséria? De uma intenção de ocultar o canal por onde expele a sua secreta gosma monstruosa, produto silencioso e nocivo de suas atividades? Que quando penetra na intimidade do ser, faz ruína de sua alma. E então se servir dela como forma de desviar o destino desses detritos para que não retornem, forma muito delicada: ilusória. Eles sempre retornarão, ou nem mesmo deixarão sua origem. Bastaria a noção de já se encontrar cercado, e coragem para através dos sinais ser obrigado a encarar suas influências.
           Se a coragem se opõe tanto ao modo de vida neste sistema, é porque a covardia governa, e a arma da covardia é o medo. “O homem é condenado à liberdade”. Mas este homem, inspirado pelo medo e iludido pela segurança, foge de sua liberdade. Todo medo é medo de liberdade. O medo da pobreza é o de livrar-se da riqueza. O medo do conhecimento é de livrar-se da ignorância. O medo da doença é de livrar-se da saúde. O medo da dor é de livrar-se do prazer. O medo da solidão é de livrar-se das companhias. O medo da realidade é de livrar-se da ilusão. O medo da morte é de livrar-se da vida.

Matheus Martini


[ a busca do indivisível ]

Wippe - Ilustração de Reiner Schwalme

Quando o “ser” foi dividido em razão e sensibilidade, a história da razão a partir de então, foi a história da divisão.

A busca pelo indivisível 

            A ciência, como a própria palavra sugere, pode ser vontade de estar ciente: vontade de consciência, onde a razão busca a consciência assim como os sentidos buscam as sensações. O equilíbrio e a compensação dessas duas atividades entre si é capaz de gerar uma saúde de consciência, assim como do corpo. Mas a elevação da razão e sua hipertrofia levam à natural escassez de um sentido que a razão não tem. Isso porque não é próprio da razão possuir em si um sentido, como o olho que vê, como a pele que sente, a língua que prova; e isso é óbvio, pois a busca de sentidos na razão é completamente vã na medida em que, como próprio resultado da atrofia do mundo sensorial em detrimento da tirania racional, a razão alcança um estado em que acredita ser capaz de “sentir” em si mesma a própria existência.
           Na história da divisão, o homem dividiu os objetos em átomos, a totalidade em palavras, infinito em números, eternidade em horas: criou a complexidade. Refiro-me à complexidade como um efeito resultante da disparidade, da disfunção, deste desequilíbrio entre as propriedades humanas (razão e sentido) onde toda criação da razão só encontra utilidade ao que concerne à razão. Situação tal que o homem nunca busca verdadeiramente o esclarecimento sensível das suas questões, porque ou está, ou se finge cego, surdo e com toda a pele coberta por um tecido morto, chamado razão. E assim sempre em vez de esclarecer, cria anexos e emendas com o propósito de contornar os problemas (sem perceber nisso a criação de novos). A razão que se esqueceu dos sentidos é essa que quer anteceder o próprio sentido prevendo o que possa sentir após uma conquista, mas muitas vezes – senão toda vez – se percebe equivocada quando os sentidos não correspondem às previsões. Por que não a carne viva? Mais penosa que a dor da ferida aberta, é a tentativa de conseguir, na diluição de toda dor, o esboço de um sorriso vazio.
           Nesse meio, até a apaixonante arte surge necessariamente inevitável, nos atinge através dos sentidos de forma tão profundamente radical, mas ainda pontual. Pois após experiências artísticas sensíveis, alguns se perdem nelas, e muitos não freqüentam as sensações por muito tempo, ou submetem toda sensibilidade a uma minuciosa descrição racional, causando a perda do sentido. E sinto que esse impacto é assim tão forte porque é oposto ao que nos domina na maior parte do tempo (razão) e subsiste como pequenos mistérios que permeiam toda nossa vida em forma de atitudes e sensações que parecem inexplicáveis. Mas não há sensações para além da razão, porque todos os sentimentos encontram seu universo entre a razão e os sentidos.
           Neste instante, peço que pare e lembre-se de sua sensibilidade; toque seu próprio corpo e perceba o corpo e o toque, observe o movimento de sua mão e lembre-se de que você o desejou, feche os olhos e sinta que percebe o próprio movimento através da visão e do tato. Se dê a liberdade (que de fato, você tem) de experimentar neste instante, uma metáfora tendo a fruta como objeto. Considere que a razão constitui o caroço (núcleo) e a sensibilidade constitui a casca e a carne da fruta. Deste modo, somente a casca e a carne entram em contato com a realidade, e o caroço recebe esse contato através da carne da fruta. O caroço é tão duro que parece indestrutível; não se afeta com a realidade enquanto a pele se arranha, a carne se amassa.
           Na essência da metáfora, se o caroço pensasse em existir sem a carne e a casca, ele estaria negando todo seu contato com a realidade, e daria atenção somente à sua rigidez, e nada a toda sua superfície envolvente. Imagine então a razão; seus pensamentos e sua consciência, mas sem a audição, sem a visão, sem o tato, sem o paladar, sem o olfato: de que se valeriam os pensamentos e a consciência? Seriam ainda assim, consciência e pensamento? Não saberia de nada sobre o lado externo, ou até mesmo sobre o interno! E o que seria interno, sem externo?
           Esse pensamento não pode parar por aqui porque devo ser fiel à mesma liberdade de pensamento que me trouxe até aqui, e penso sobre o inverso: o que seria do externo sem o interno? O que seria de todas as sensações, os sentidos, sem a razão? O que seria do som, da imagem, das texturas, dos sabores, do cheiro, sem o pensamento que percebe estas sensações? Talvez fosse como um espetáculo sem platéia, assim como o inverso (o que se assemelha ao que vivemos) seria uma platéia, sem espetáculo algum. Uma espera sem nada a ser esperado, porque na realidade o espetáculo é muito mais sutil do que parece, porque como tudo que é sutil, necessita de nós para que seja completo.
           A existência se mostra como algo muito sutil: muito carente. Antes de qualquer coisa, carente de nós mesmos. E não devo seguir apenas pela sensibilidade, assim como não devo seguir apenas pela razão, devo seguir apenas pelo equilíbrio.

Matheus Martini


[ fragmentação ]

Galeria de Arte - Ilustração de M.C. Escher

A fragmentação compromete a visão do todo. A separação das tarefas e das funções da noção de totalidade dá à tarefa um sentido que ela não tem, um sentido vazio. Quando se dá à fruta um sentido além da semente e do alimento, sem contemplar a árvore, deixa de ser uma fruta, pois ignora-se a fome, ignora-se a árvore: no caminho da definição da palavra, o objeto perde sua essência.

Matheus Martini


[ prima-vera ]

Shiva e Parva - Milo Manara

Brotam flores nos teus olhos nesta estação derradeira. Derramo sobre ti minha alma, pois encontro em ti motivação.

Mulher, espécie que me deu a luz, o amor, o desprezo e o corpo, fazendo-me aprender, no calor das tuas entranhas, talvez o motivo mais absoluto, carnal, e elevado da existência, de uma simplicidade e delicadeza quase imperceptíveis.

A vida, inexplicável e frustrante como pode parecer – com desilusões, mergulhos no vazio de alguns sentimentos, e com a difícil digestão de antigos ressentimentos – atinge um clímax: um ponto máximo num momento de êxtase, quando os objetos ao redor tornam-se abstratos e perdem sua forma e só resta em nosso prazer, toda a paz e paixão de que o mundo carece.

Você, que é capaz de gerar do nosso suor, uma obra e causa prima, uma ode à vida humana, que é capaz de guardar no íntimo do ventre, nosso instinto e propósito.

Pode ser simples assim, e todo o resto:

Pura fantasia – pura fantasia racional…

 

 Matheus Martini


[ sobre livre-arbítrio ]

Salvador Dali – A Caravela

Salvador Dali – A Caravela

O que podemos observar por livre-arbítrio? Apenas uma aversão à predestinação – a favor da decisão pelo próprio destino -, um mero voto contra ideais calvinistas? Ou uma questão de ser capaz de decidir agir sem que esta ação sofra influência de fatos antecedentes?

Se pensarmos em predestinação e livre-arbítrio, veremos logo que entra em questão a existência de Deus, pois necessariamente é atribuída a ele a decisão dos destinos de todos. E considerando a existência de Deus, poderia ele ter esse poder ou não, o que é impossível de ser constatado através da experiência. Ainda sob esta ótica, considerando que Deus não exista, a hipótese de predestinação se torna ridícula e fora de cogitação.

No outro caso, tomando como referência o existencialismo de Sartre, a atitude, a ação com um fim tem, por definição, um motivo. Se considerarmos que tudo ja está pronto, determinado e não acreditarmos em uma possibilidade de mudança, conseqüentemente, perde-se o motivo para qualquer ação. Em Sartre, o homem é condenado a liberdade – possui livre-arbítrio -, e suas decisões implicam em um compromisso, onde deverão ser assumidas suas respectivas responsabilidades e conseqüências. No exemplo dado por Sartre em uma entrevista, ele diz: “Se preparo certo tipo de manifestação para tal problema político, estou obrigado a tomar parte em uma manifestação análoga para um problema que repete em sua essência, o mesmo problema fundamental”.

Sartre também descreve o fenômeno do prático-inerte, onde o indivíduo já chega em um mundo “pronto e determinado” pelo seu passado e história. Escolhas que outros fizeram, e fins que outros atingiram – como em acontecimentos importantes da história da humanidade, como também da ciência -, serão geradores de punhados de possíveis escolhas prontas, isso se observa na educação básica e no curso superior. Já existe então um condicionamento ao modo de vida desenvolvido antes de sua existência como ser. Suas escolhas, portanto, serão de certo modo condicionadas por sua situação, e não puramente escolhidas por seu eu “Em-si”. Inicia-se então o processo de alienação do ser, pelo seu eu “Para-os-outros”. O homem alienado está fora de si, e não realiza seus próprios fins e projetos, mas o que é almejado por outros.

“Não somos livres para abdicar de nossa liberdade, nem para gozar de sua máxima plenitude”.

 

Matheus Martini


[ apresentação ]

 Céu e Água - Ilustração de M.C. Escher

Céu e Água - Ilustração de M.C. Escher

 No auge de uma bebedeira o poeta exprime um poema magnífico, tão profundo – quase um desabafo. Seus sentidos estão tão atiçados quanto transmutados. De longe, avista um enigma complexo com tanta clareza e de forma tão concreta como quem observa a porta de saída. Eis o clímax, o ponto culminante de sua doença, sente que tem neste instante a noção da realidade humana de uma forma plana, como quem vê das alturas. E em seguida, como uma mariposa estabanada que incansavelmente dá voltas ao redor de uma lâmpada em meio à escuridão da noite, atinge em cheio a luz e entra em crise. Decai num espiral desajeitado até as profundezas da sua alma.

A quem se permite um par de asas das mais leves e fortes. A quem se permite coragem para as alturas. A quem se permite uma visão sóbria: um desafio, muitas possibilidades e grandes perigos. O vôo sem limitações já representa um perigo em si, e não se mostra como espécie alguma de evolução ou revolução para o contexto que percebe ao retornar por não ser continuidade, mas parecer muito com loucura.

Para o novo “louco” muitas situações passam a ter caráter fatal, a condição “normal” humana lhe parece um perigo, um absurdo. Vê com assombro todo o mecanismo de funcionamento da sociedade. Ele representa neste instante uma ameaça em potencial para o contexto humano-social, suas formas de vida, de produção e desenvolvimento percebido – uma idéia de ruptura de um modo, dentro do qual todos são criados, educados e úteis.

            Não há aqui pretensão de atingir verdade alguma, nem de que o conteúdo sirva para qualquer um, mas de cumprir a simples e essencial tarefa de existir.

 

Matheus Martini


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