
It's a Shame about her Hand - Josh Jacobs (photographer)
Somos humanos; pensamos e sentimos. Acreditamos porque queremos, se acreditar significa, antes de tudo, querer. E se acreditar é crer, dar crédito; o “crédito” que damos é nossa confiança, nossa vontade, nosso querer. Acreditar no que não se sabe ou no que não se sente só pode ser uma negação de nossas singulares condições humanas. Se algum “Deus” em algum momento nos tivesse dado a capacidade de “querer”, porque deveríamos retornar todo nosso querer a ele? Seria deus, Vaidoso? Seria o viver uma eterna redundância? Como Narciso se descobriu nas águas, teria Deus se descoberto no homem?
E como poderíamos, com todo carinho, paixão e amor dedicar adoração a este “Deus” – que não conhecemos ou que não se revela, – enquanto sobra tanto espaço para detestar, repudiar ou se afastar dos homens e mulheres que nos são tão próximos e tão conhecíveis? Por que é dedicada tanta atenção e tanto esforço ao além, e tão pouco – senão nada – ao refinamento da percepção da realidade que nos concede diariamente a possibilidade de existir?
Nietzsche diz que Deus está morto porque todos nós o matamos. Pude captar um dos sentidos deste pensamento no exemplo dos medicamentos, em que o homem não concede mais a “Deus” a confiança da cura, mas às cápsulas que contém substâncias invisíveis, nas quais dedicamos uma igual confiança de cura. Confia-se que na confecção daquela pequena cápsula foi empregado o conhecimento sobre o combate de bactérias invisíveis que causam determinados sintomas e prejuízos ao nosso organismo.
Talvez o ponto que mereça mais atenção nem seja simplesmente o da confiança, mas o ponto em que há falta de contato direto e apurado com ambos, Deus ou bactérias invisíveis, e ainda assim se confia sem possuir meios de confirmar a completa eficácia de quaisquer métodos. É claro que a diferença básica entre “Deus” e bactérias, neste caso específico, é que as bactérias são visíveis quando constatadas através de instrumentos de laboratório enquanto Deus é encontrado na imaginação e nas palavras de religiosos, o que se faz muito mais subjetivo; mas isso não vem ao caso agora. O que a idéia pretende é que esse fenômeno todo parece indicar que um espaço que “Deus” ocupava na fé dos homens, agora é ocupado pela ciência.
Pelo fato da ciência ser baseada em pesquisas e experiências reais, até parece que o homem do futuro deveria estar muito mais tranqüilo por entender e encontrar a cura para os microorganismos que ameaçam há muito tempo a sua saúde, mas de fato nada muda. O homem ainda estará fadado ao mesmo destino. Poderá adiar seu destino desta vez, ou outras vezes mais, mas na persistência dos sintomas poderá encontrar seu destino, ou talvez em algum instante inesperado, acidental. A busca que persiste é antiga, e pretende a cura para este destino tão temido. A “cápsula” que cura a morte.
É neste ponto que entendo que as crenças permanecem mais firmes e confortáveis, porque elucidam sobre o que há para além desta experiência única e derradeira. Porque quando ela leva alguém, para os que ficam nada é esclarecido; a experiência de morte é reservada apenas para quem se vai. Para os que ficam, são deixadas recordações daquilo que foi e fez.
O maior incômodo das religiões é o fato de se fixarem com mais firmeza nesta delicada curiosidade sobre o depois – assim como a um passado distante e enevoado, – dirigindo atenções e esforços para um além, enquanto deixa o presente abandonado e passivo a estes esforços e atenções. Se não podemos ter na lembrança uma vida anterior a esta, e tampouco a consciência plena de um além bem definido, como tudo isso poderia ter importância maior que o agora? No conformismo e comodismo que o pensamento no além oferece está uma perda de importância deste instante supremo que é a vida!
Por que não nos permitimos pensar sobre qualquer coisa sem medo? Medo do que? Por que não dedicamos toda essa energia empregada no além para renovar sempre o nosso próprio modo de vida, que de fato é real, diário? Por que o além, e não o agora? Por que não nos permitimos experimentar outras formas de viver? Podemos lançar mão de toda evolução humana, que hoje se mostra mais tecnológica que humana, para evoluir de fato, o ser humano. Ou seja, para evoluir a condição humana em si; essa ordenação caótica e desigual instalada no mundo.
Por que achamos que outra forma de vida seria impossível se não tentamos? Achamos que esta forma atual é a melhor que o homem desenvolveu até hoje? Por isso não tentamos? Quando nos ocorre algo neste modo de vida que nos desagrada profundamente, o que fazemos é nos esconder em crenças ou cultos do além? É assim que fugimos quando somos solicitados todos os dias a continuar vivendo? Passamos pela vida assim, como quem viaja em um trem olhando para o nada para não encarar ninguém, ou para não se perceber encarado?
O único sentido que eu encontro quando penso em “Deus” é uma constante evolução, exatamente o que as religiões – com suas idéias absolutas enquanto não questionadas e o medo de pensar o “diferente” disseminado – estanca, condena e impede. Sem dúvida, nossa evolução espiritual está para além de definições, dogmas, temores e estagnação. Para além de idéias que se fecham em si mesmas como idéias estéreis. Idéias que morrem no corpo do pai, no útero da mãe, idéias abortivas. Que medíocre é a vida quando não se questiona, quando não se transforma, quando não é encarada como vida!
Matheus Martini
















