[ a porta ]

Olho – Ilustração de M.C. Escher

Este é um conto que escrevi quando ainda fazia o colegial, e a idéia surgiu a partir de uma reflexão sobre o livre-arbítrio e o crime. Aqui vai:

           Ergueu os olhos com dificuldade e encontrou um rosto assustado que transcendia o espelho. Na sua mente, arquitetava um plano febril. Chovia lá fora. Estava entediado e fechou a janela com violência. Não havia o que fazer naquela tarde de domingo e caminhava inquieto pela sua casa. Abriu uma gaveta de onde tirou um canivete. Olhou com cuidado para sua lâmina cintilante e passou seu dedo para sentir o fio, mas cortou-se e atirou o canivete contra a parede irritado. “O crime é fácil”, pensou. Pegou novamente o canivete e guardou no bolso “, é realmente possível ferir alguém com isso”. Suas idéias o incomodavam, era difícil aceitar que o seu lado obscuro se manifestava naquele momento. Voltou para o banheiro, lavou seu dedo cortado pela lâmina afiada e procurou algo para fazer um curativo, mas não havia gaze, nem esparadrapos. Decidiu sair para comprar. Abriu a porta para sair e deixou o canivete sobre a mesa da sala. O elevador estava vazio e no seu interior pairava um cheiro ruim de lixo. Podia ver a farmácia do outro lado. Atravessou a rua correndo, por haver esquecido o guarda-chuva, e entrou na farmácia. Uma moça o atendeu. Estava cercada por uma fragrância agradável e sua pele lisa refletia o azul da tela do caixa eletrônico. Apanhou o troco e atravessou a rua correndo novamente.
No elevador encontrou Alfredo, seu vizinho, e ele lhe sorriu:

-        Boa tarde Marcos – disse Alfredo num ar distraído -, está frio, não?
-        É verdade, respondeu Marcos incomodado. Detestava aqueles papos de elevadores que forjavam apenas para evitar o silêncio.

           Espalhou-se pelo ar um suave perfume de café, e logo viu a embalagem na sacola que seu vizinho segurava. Pensou então, em dizer algo para não dar impressão de descaso e completou: – Não há nada o que fazer nessas tardes chuvosas.

-        É por isso que eu sempre faço um café e vejo um jogo na televisão, não quer ver comigo?

           Sentiu-se incomodado pelo convite e cuidou para não esboçar alguma expressão. Queria ficar sozinho com os seus pensamentos por toda aquela tarde. Era preciso estar sozinho. Olhou para o rosto carnudo de Alfredo e sentiu nojo dele. “Não sei porque ele me incomoda tanto”. Alfredo arquejou as sobrancelhas e Marcos precisava responder. Estava irado porque não queria mais falar. As próximas palavras pareciam ser dolorosas e conservou-se estático com os lábios ensaiando alguma resposta. Lembrou-se do canivete sobre a mesa. Olhou para Alfredo e viu seu rosto gordo sangrar. “Como o odeio”.

-        Aceito, passo em casa e depois toco à sua porta.
-        Que bom que aceitou, espero que goste de café!
-        Sim, gosto, até logo.
-        Até!

           Abriu a porta com pressa e entrou. O canivete estava ali, e brilhava. Seu plano febril se armava novamente na sua cabeça. Ele tomou o canivete em suas mãos e o guardou no bolso. Deixou a chave em cima da mesa e não trancou a porta. Fazia parte do seu plano.
           Eram seis e quarenta e cinco, e soava pelo corredor o som suave da campainha da casa de Alfredo. Ele recebeu Marcos com empolgação e o disse para se sentir à vontade. A televisão estava ligada e Alfredo estava na cozinha, de onde vinha um forte cheiro de café. Marcos sorriu e foi até a janela. Não estava mais chovendo e não havia movimento nas ruas, os comércios estavam fechados e já estava escuro. Voltou para a porta e olhou a cozinha. Alfredo estava de costas. Virou a chave para deixar a porta aberta, a retirou da fechadura e colocou-a sobre um móvel próximo. Era outra parte do seu plano. Colocou a mão no bolso e sentiu o cabo do canivete. Estava frio. Pensou que talvez fosse difícil matar alguém. Algo o impediria. Talvez a vítima resistisse, ou talvez ficasse a agonizar no chão, respirando os seus ásperos momentos restantes de vida. Alfredo vinha da cozinha e Marcos tirou rapidamente a sua mão do bolso e pousou sobre o parapeito da janela.

-        Está pronto, disse Alfredo carregando uma pequena bandeja com dois copos.
-        Parece estar bom!

           Realmente parecia estar bom. O vapor do café subiu lentamente até tocar seu rosto e penetrou seu corpo o fazendo sentir-se quente. Aquela não era a hora do crime. Tomou um gole do café e soaram sete horas no relógio da sala. Alfredo falava sem parar e Marcos não ouvia nada do que ele dizia, apenas concordava a gestos com a cabeça. Estava aborrecido com ele. Olhou para o seu lado e viu a porta. 
           Alfredo se levantava para pegar alguma coisa. Era a hora certa! Marcos estava nervoso. Tremia, e não sabia se era de frio. Apalpou sua calça e ali estava o canivete, imóvel. O crime estava ali, a sua frente. Não podia acreditar. Precisava provar a si mesmo que não havia perigo, pois a porta estava ali, aberta. Empunhou o canivete e viu a nuca peluda de Alfredo. Calculou a força e a trajetória do golpe mortal e olhou para sua mão trêmula. Alfredo ainda falava algo. Marcos transpirava, mas sentia frio. Fitou por um instante o movimento ruidoso dos ponteiros do relógio, os porta-retratos sobre a estante, o jogo que passava na televisão, e o canivete que ainda estava imóvel em sua mão fria. Alfredo virou-se e logo viu o canivete. Seus olhos arregalaram-se e o seu copo escorregou por entre seus dedos carnudos partindo-se ao meio quando tocou o chão. O café se espalhou rapidamente pelo piso. Marcos sabia que não havia mais volta. Não poderia sair sem sua prova. Precisava provar para si. Estava desesperado. Alfredo gritou e num reflexo desastrado, Marcos o acertou no pescoço. Alfredo caiu no chão, e se arrastava até o telefone. Do seu pescoço jorrava um sangue escuro e volumoso. Havia sangue no chão e na parede. Marcos sentiu o perigo do momento. Alfredo tinha o telefone nas mãos. Neste instante, voltou para a realidade, e comprovou por mal que aquilo era possível. E agora? A porta estava ali. Era a sua fuga. A vítima tentava impedir o fluxo do sangue com uma mão e com a outra, ligava para a polícia. Marcos sentiu nojo de si mesmo, ele era sua própria ameaça. Alcançou Alfredo a tempo e num golpe arrancou-lhe o telefone das mãos. Alfredo tentava dizer algo, parecia sentir muita dor. O desespero de Marcos era inconfundível. Novamente olhou para sua mão que empunhava um canivete sujo de sangue ainda não satisfeito, que chamava a morte. Alfredo se contorcia de dor ao chão, e nesta altura, não sabia qual seria o próximo passo de seu plano. Ali estava sua vítima agonizando no chão. Então, num impulso do desespero, acertou mais cinco facadas no peito de Alfredo que deu um último suspiro.
           Um arrepio gelado escalou sua espinha. Sua vítima não se mexia, estava morta. Largou o canivete no chão e sentou-se no sofá chocado. Pegou o seu copo e tomou outro gole de café. Ainda tremia e seu coração batia forte. O café estava quente e amargo. Os olhos duros de Alfredo estavam bem abertos. “Está morto”. Era incrível o teor de realidade que aquele momento o propiciava. Havia muito sangue no chão, na parede e nos móveis. E entre todas as figuras daquele ambiente, jazia a imagem ofuscada de seu vizinho ao chão. Não podia acreditar. Era seu vizinho, que via todos os dias, e cuja vida esvaiu-se prontamente sob o impulso de suas mãos inconseqüentes. Mas ainda restava num canto da sala, a porta. Era a última parte de seu plano febril. Só restava fugir, lá estaria a porta de sua casa aberta. Foi lentamente até a porta e virou a maçaneta. Havia alguém lá fora e aguardou um momento. 
           Abriu a porta bem devagar e olhou para o corredor. Nesse momento, fecharam uma porta, e foi possível perceber o som das chaves que a fechavam pelo lado de dentro. Teve o cuidado de tirar os sapatos para não deixar pegadas no piso do corredor. Atravessou o corredor em cinco passos e forçou a maçaneta da sua porta que se partiu como gesso em sua mão. Procurou as chaves no bolso, mas não estavam lá. Voltou correndo para a casa de Alfredo, fechou a porta e pôs seus sapatos perto do sofá. Sentia-se incomodado. Havia um par de olhos que o observavam. Não sabia se eram os olhos de Alfredo, se eram os olhos da lei, ou se eram os olhos de um ser superior que o observava de cima, talvez. Deu uma volta em torno de si mesmo e um calafrio fez seu corpo estremecer. Virou o corpo de Alfredo para o outro lado como precaução. Voltou-se para a janela e lá encontrou os olhos que o observavam. 
           Era uma face estranha que via no reflexo da janela. Era o reflexo de uma face derrotada, suja de sangue. Era a face de um assassino. Naquele momento tinha horror do seu corpo. Desvirou o cadáver e por um instante viu-se e pôs-se a rir angustiadamente. “Ele deve ter sofrido menos que eu”. Pegou o telefone e discou o número que Alfredo tentava ligar. O relógio marcava oito horas e a polícia saía do prédio com Marcos algemado, que tinha no bolso o pedaço da maçaneta. No vidro do carro retornava ao início do seu dia, onde um rosto desfigurado o observava silencioso, enquanto desabava o mundo do outro lado da porta.

Matheus Martini


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