[ as duas ilhas ]

A Grande Onda – Katsushika Hokusai

 

Capítulo I

A Ilha das Cores

                No ano de 1132, haviam duas ilhas. Numa delas morava uma tribo de indígenas que desenvolveram uma tecnologia muito complexa, porém rudimentar, mas que era muito desenvolvida para a época em que viviam.

            Viviam do cultivo de arroz e de cana-de-açúcar, também plantavam bananeiras, batatas entre outros.Todos trabalhavam em favor a Anaití, que era uma espécie de rei que comandava as faixas da sociedade indígena que vivia na ilha.

            Ele era uma pessoa difícil. Não havia nada que o convencesse a não ser que ele visse o que queriam faze-lo acreditar. Era alto, forte, tinha cabelos compridos e escuros e tinha uma cicatriz no rosto por uma caça que eu fez quando era jovem.

            Chamavam esta ilha de Ilha das Cores, pois era repleta de flores coloridas por uma natureza fantástica e surpreendente apreciada por todos. Era grande, com algumas pequenas montanhas, florestas, pequenos lagos e um lago central. Haviam partes ainda desconhecidas por todos que viviam na tribo, pois bastante temiam a natureza da ilha por possuir criaturas silvestres perigosas. Sua vegetação era diversificada, tinham arvores de grande porte e alguns coqueiros espalhados.

            Não existiam escolas na ilha por não terem criado uma, mas os que descobriam sua função na ilha, eram ensinados por outros da mesma função, e assim que eram as “escolas” deles. Haviam muitos jovens aprendendo a função de construtor, também de pescador, cientista, biólogo e outras conforme a necessidade da tribo, suas vontades e habilidades físicas e mentais.

            Em meio a todas as casas se erguia uma grande construção chamada casa-grande, onde morava o rei e a sua família, e também eram treinados os guerreiros que protegiam a ilha e todos que ali viviam de qualquer perigo que viesse a trazer problemas para a tribo.

O Encontro

           Entre os guerreiros que treinavam na casa-grande, estava o jovem Aram que sempre sonhou em ser guerreiro para proteger a ilha de qualquer coisa que viesse a acontecer. Era um belo jovem, de sorriso largo, sua beleza era bruta por ter traços fortes e cabelos encaracolados. Ele assistia todos os treinamentos dos guerreiros, pois isto o fascinava muito desde que viu o primeiro.

Certa vez estava assistindo um treinamento, quando viu uma garotinha que vinha assisti-lo também. Ela era morena, tinha olhos castanhos claros e uma face angelical que apunhalou o coração adormecido de Aram, que encantado com a beleza da garotinha, se aproximou e perguntou:

-         Você gosta de assistir as lutas?

-         Sim, eu adoro, e você?

-         Eu também. Quero ser um guerreiro quando crescer!

-         Mas você não é filho de guerreiro, como pode ser guerreiro?

-         Preciso ser filho de um guerreiro para isso?

-         Claro, meu pai sempre disse que cada um tem a sua função na nossa sociedade, e que os filhos de guerreiros, para manter sua honra, deveriam defender seu povo de tudo.

-         É, então acho que nunca poderei ser um guerreiro. Disse Aram, com os olhos baixos.

-         Não fique triste, disse a garotinha, com um tom acolhedor.

E então, Aram a perguntou seu nome, e ela respondeu com alegria: – Meu nome é Amanda. Aram ficou encantado com a garotinha, mas ele tinha que ajudar sua mãe na colheita, então se despediu e se foi.

 Obsessão

             Após este momento não lhe saia da mente a linda garotinha que acabara de conquistar seu coração jovem cheio de inocência e de amor. Até então, se encontrava todo dia com Amanda nos treinos e acabaram por ficar bons amigos.

            Passou-se muito tempo com as coisas no mesmo lugar e sem nada mudar perceptivelmente, mas aos dezessete anos de Amanda, sua beleza e doçura já estavam por deixar Aram, em seus dezoito, louco de desejo por ela, mas evitava qualquer coisa que os aproximasse muito pelo medo que tinha de seu pai.

            Ela também era atraída por Aram, mas nunca levara a sério tal idéia, pois temia muito qualquer perigo que isso poderia causa-los, e por isso procurava ser o mais racional possível em relação a Aram, e assim permaneceu.

            Continuavam se encontrando nos treinos, e já saiam juntos algumas vezes para comer amoras, apreciar a vista do lindo mar que banhava sua aldeia, passear e coisas do gênero. Tudo estava muito bem com os dois e com todos, e Aram já pensava em se declarar para Amanda, mas o medo ainda rompia a sua ligação com sua coragem.

            Ele procurava palavras para confessar sua paixão para Amanda todas as vezes que a via, mas nunca saia uma palavra se quer de sua boca calada pela angústia da oculta obrigação de permanecer em silêncio que ele mesmo havia criado para si. Ele agora tinha medo de enlouquecer, já dormia mal por não achar forma de acalmar seu coração agitado pelo fogo deste amor.

  O Gosto do Beijo

              Aram combinou com Amanda nas pedras pela manhã, e nem dormiu, lá estava antes do amanhecer por tanta ansiedade que lhe perturbara o sono. Olhava o mar com esperança enquanto lembrava dos seus sonhos de guerreiro e pegou um galho. Fazia movimentos como que um guerreiro com a espada, quando Amanda chegou. Parou atrás de uma pedra para observa-lo sem que ele percebesse, e observava os movimentos perfeitos de Aram.

            Ela chegou de repente e Aram, assustado, escondeu o galho numa pedra. Ela rindo perguntou porque havia se assustado com ela e a respondeu: – Me sinto incapaz e um idiota, nunca poderei ser um guerreiro, não sei porque insisto nesta idéia ridícula.

-         Acalme-se Aram, você pode ser mais importante que um guerreiro se você acreditar.

-         Como?

-         Pode ter uma carreira limpa e perfeita pela frente e ser exemplo para muitos.

-         Mas minha carreira não é nada.

-         Mas…

-         Não me iluda, eu já sofro muito pela ilusão que perturba minha mente.

-         Como assim?

-         Esqueça!

-         Ora, me diga Aram…

-         Eu não sei, guardo isso há muito tempo e não sei se isso deve ser revelado.

-         Vamos, me diga. Disse Amanda erguendo a face de Aram encurvada pela obsessão que o guardava.

           Então, a olhou nos olhos de como nunca havia olhado antes e passou a mão sobre sua face com carinho e respeito, e ela, com o coração batendo fortemente pela ansiedade, olhava também nos olhos dele cheios de luz e de amor, mas com medo do que poderia acontecer. Mas então, envolvidos por esta força estranha, ainda desconhecida pelos dois, Aram a deu um beijo solene e impulsivo, e ela retribuiu. Os seus cabelos voavam ao vento, o mar continha o imenso calor dos dois corpos incandescentes e ele via a face de sua amada sobre seus olhos, mas não podia ouvir suas palavras, apenas via Amanda e seus doces lábios o chamando, quando sentiu o frio da água em seu rosto o despertando deste lindo sonho confuso. Ela, sem entender nada, perguntou o que acontecia e ele respondeu: – Não sei, eu acho que dormi enquanto a esperava.

-         Não há problema, esta tudo bem.

-         Claro.

A Besta

             Os dois observavam a outra ilha vizinha e imaginavam o que poderia existir nela. Viajavam em idéias distantes, nas suas origens, em sua cultura e no absoluto conhecimento de seu povo.

-         Será que existem outros povos além de nós? – dizia Amanda.

-         Quem sabe? – Aram.

-         Mas eu acho que um dia conheceremos todos os lugares do mundo o que acha?

-         Maravilhoso. Um mundo novo, com frutas novas, plantas, terras, mares, todos diferentes do que vimos em toda vida nesta ilha.

-         Deve ser um sonho.

-         E é. Quem não desejaria isto?

-         Ninguém. – e riu.

            Aram avistou algo nas árvores que estava provavelmente à espreita dos dois, e pediu à Amanda para permanecer calada por um instante, e ele foi para perto da floresta onde viu algo, quando de repente saltou da mata um imenso jaguar que foi imediatamente para cima de Amanda e a deu uma patada na perna, a fazendo cair ao mar. Ele, apavorado, pegou uma pedra e acertou a cabeça da besta que veio logo em sua direção. Surgiram da mata o rei e um caçador fardado com uma espada que foi para cima da fera que tentava alcançar Aram numa árvore. Ele arrancou um galho e acertou a besta novamente na cabeça, e ela ficou mais furiosa ainda, e o caçador se aproximou quando a besta o acertou no braço com as garras deixando ao chão a espada. Aram, imediatamente pulou sobre ela puxando as suas orelhas, mas com uma chacoalhada o jogou ao chão perto da espada, e quando a fera saltou sobre ele, numa fração de segundos brandiu a espada que atravessou o peito da besta que caiu morta sobre ele.

            O rei ficou impressionado com o rapaz, mas preocupado com sua filha perguntou: – Rapaz, onde está Amanda?

-         Ao mar. Eu a salvarei. – disse Aram com braveza.

Ele saltou ao mar e a pegou pela cintura a levando de volta para onde estavam. O rei ficou surpreendido com a coragem e agilidade do jovem Aram. Então, agradeceu sua ajuda com muito respeito e perguntou: – Qual seu nome rapaz?

-         Aram, senhor.

-         Pois apareça na casa-grande para eu lhe falar.

-         Sim, como quiser.

O Sonho Ganha Vida

            Mais tarde, após cuidar de seus ferimentos, Aram chegou à casa-grande a procura do rei, quando viu Amanda sendo levada para seu quarto para ser medicada e ele foi ver como estava. Ela estava febril, com arranhões na perna e Aram a olhava preocupado, ela sorriu e seu pai apareceu o chamando:

-         Vamos, meu jovem! Preciso lhe dar uma notícia!

-         Pois não, senhor.

-         Você teve muita coragem para enfrentar a besta e salvar minha filha do mar, lhe devo uma recompensa e eu quero que seja algo que sempre quis e que tenha bom valor para você. Minha filha contou que você sempre quis ser um guerreiro e defender a nossa ilha…

-         O que quer dizer? – pergunta Aram ansioso.

-         Quero dizer que desejo sua participação aos treinos na casa-grande para se tornar um de nossos guerreiros protetores.

-         Mal posso acreditar, sempre quis ser um guerreiro!

-         Então apareça aqui amanhã no horário de treino pela manhã.

-         Claro, como quiser, senhor. – e se foi.

 

Capítulo II

 Imagens de um Conflito

            Aram chegou em casa muito feliz e contou a boa-nova aos seus pais, que se orgulharam do rapaz e o abençoavam com palavras bonitas e gestos de carinho. Ele então, logo foi dormir e sonhou…

            No sonho, estava com um grupo de guerreiros nas pedras, e chegava um barco com muitos guerreiros dentro, com tochas que gritavam o tempo todo. Quando chegou o barco, eles desceram na terra e então se deu início a um combate terrível e sangrento. Vinham guerreiros de toda parte e ele vencia todos um por um, até que viu Amanda e parou por um instante para olha-la, que gritava desesperadamente para ele, que não entendia, quando de repente, sentiu algo estranho, seu corpo transpirando e um calor imenso, e num grande susto acordou com sua mãe o chamando para o treino, pois já havia amanhecido na Ilha. Ele, assustado se arrumou e saiu de casa.

 O Início de uma Amizade

             Logo, ele chegou à casa-grande e se dirigiu para o local onde treinavam e lá estavam muitos guerreiros, e eles o olhavam estranhamente, pois ele vestia-se diferente de todos, que estavam com os trajes de luta desenvolvidos por eles, quando chegou Anaití e deu início ao treino.

            Aram recebeu uma espada de modelo padrão de Anaití, e foi treinar com outro guerreiro. Este guerreiro era Abanã. Homem forte de cabelos negros e pele vermelha. Usava um medalhão no pescoço e tinha uma espada bonita feita por ele mesmo uns tempos atrás. Mairarê era mulher de Abanã, ele a amava mais que tudo na vida. Os dois viviam juntos numa casa perto da casa-grande.

            Enfim se conheceram e começaram a treinar. Abanã achou Aram muito habilidoso com a espada e se pôs em posição de defesa. As espadas se enfrentavam, os golpes de Aram já estavam por deixar Abanã sem defesa, e então derrotado. Numa defesa de  Abanã, ele ficou vulnerável e Aram iria vence-lo, quando viu Amanda e parou. Num golpe rápido, Abanã tirou a vantagem de Aram e investiu em vários ataques seguidos e acertou o peito de Aram, que então, foi ao chão, derrotado.

            Amanda estava preocupada e olhava com curiosidade para saber se ele havia sido ferido, mas estava tudo bem. Aram levantou-se e atacou Abanã, que defendeu. E num só golpe pôs o adversário estendido no chão. Ajudou o adversário a se levantar e disse: – Você luta muito bem.

-         Você também. Agora estamos empatados, não?

-         É, acho que sim.

-         De fato. Qual seu nome, jovem?

-         Meu nome é Aram. E o seu?

-         Abanã, o vermelho. Pode me chamar de vermelho se quiser.

-         Claro, vermelho. – disse Aram sorrindo.

            Os dois apertaram as mãos e o treino chegou ao fim.

 O Berço da Paixão

             Quando Aram estava indo embora, Amanda veio ao seu encontro e perguntou se estava tudo bem com ele. Abanã, interrompendo, despediu-se de Aram e se foi. Estou bem. Não, é que vi você ali e achei que tinha… – me machucado. – disse Aram interrompendo-a com um sorriso e logo retrucou: – Nada me aconteceu como pode ver.

-         Ora, que bom.

            Amanda estava confusa, sentia uma vontade forte de estar com Aram. Queria sempre vê-lo treinar e sempre falar com ele. Neste momento, lhe passavam milhares de pensamentos pela cabeça e disse Aram, achando estranho o silêncio de Amanda:

-         E você, Amanda? Está bem?

-         É, sim. Mas ainda estou…

-         Amanda! Por que saíste de seu quarto? Não vê que precisa de repouso? – disse a moça que cuidava de Amanda.

Então Aram se despediu de Amanda e foi para as pedras descansar de seu treino, que tinha o deixado um tanto que cansado.

            Sentou-se numa pedra e dali olhava o mundo. Pensou na atitude de Amanda, em sua preocupação, e lembrou do sonho que teve naquele dia em que a esperava nas pedras. Teve a certeza de que estava apaixonado, e pensava em confessar isso a Amanda, só queria esperar o momento certo.

            Ficou por instantes meditando e adormeceu. Acordou quase sem perceber e viu que o sol estava se pondo e se foi. De noite, bateu a sua porta Abanã. Ele o chamou para a fogueira com os guerreiros e lá estavam minutos depois. Então conheceu a mulher de Abanã, Mairarê. Achou-a simpática e descobriu que ela conhecia bem Amanda. Ela disse que Amanda fazia alguns comentários sobre ele, e que ela até saiu do quarto para vê-lo treinando.

Ele maravilhou-se com a notícia, pois agora tinha quase certeza de que conseguiria o beijo que tanto desejava de Amanda.

A Chama

No outro dia, não havia treino e Aram foi visitar sua amada, com esperança de que estava bem melhor que no dia anterior. Ele entrou em seu quarto e ela fingiu estar dormindo. Ele então, foi até ela vagarosamente e passou delicadamente a mão sobre face, cabelos e mãos de Amanda, que estava com o coração disparado de tanto que fingia. Ele então chegou bem perto do rosto dela e disse baixo em seu ouvido: – Vim te ver minha flor, mas já que está dormindo, eu me vou. E se afastou dela.

-         Espere! – disse Amanda.

-         Está acordada?

-         Sim, estou.

Neste momento, Aram estava sem o que dizer e olhava para ela com esperança de ouvir algo, e ela suspirou: – Tenho algo para lhe dizer.

-         Pode falar, Amanda.

-         Eu estou sentindo algo muito forte por você e não sei mais o que faço para tentar esquecer isso. Todos os dias eu penso em você e não consigo ficar em paz quando não te vejo.

-         … – Aram ficou em silêncio, engoliu cada palavra que saiu da boca de Amanda.

           Logo ele se conteve e num segundo já estava beijando Amanda como sempre sonhou. Eles tremiam de amor e prazer. Queimavam como o fogo, sem direção, sem saber como colocar para fora todo amor guardado até então nos corações jovens dos dois. Já estavam quase fora de si quando ouviram o som de alguém chegando os fazendo voltar aos seus lugares.

           Entrou a moça que cuidava de Amanda, e ela trazia um chá com ervas da ilha para ela e ele decidiu se retirar.

As Cinzas

           Por uns meses Aram continuava na rotina de treinar e quando possível, encontrava Amanda escondido e os dois se amavam cada vez mais. Correram riscos e quase foram descobertos, mas este amor ainda durou por muito tempo. Aram já havia criado um vínculo forte com Abanã e eles sempre estavam andando pela ilha e caçavam juntos também.

Aos dezenove anos de Amanda, um dos guerreiros, Arani, que era bom amigo do rei, pediu a mão de sua filha e ofereceu seus serviços, e é claro que Anaití aceitou a proposta. Na outra semana, já estava marcada a cerimônia para unir-los em nome de suas deidades.

Aram logo ficou sabendo, e furioso, não entendia o porquê que Amanda se casaria com outro.

Sentia imensa raiva de Amanda e decidiu nunca mais cruzar seu caminho onde quer que ele fosse e assim permaneceu.

 

Capítulo III

A Descoberta

           Alguns dias depois, Aram ainda estava triste e incomodado com a notícia e Abanã tentava o acalmar, pois ficou sabendo por sua mulher o motivo da tristeza e angústia de Aram. Os dias não eram mais os mesmos e Aram lutava exageradamente levando a sua suspensão provisória dos treinos para recuperar a sua calma e lutar como sempre lutou.

Enquanto isso Aram ficava nas pedras, onde havia sonhado com Amanda certa vez, para se recordar de todos momentos bons que teve ao lado de Amanda, e pensava em como se acalmar para levar a vida como antes. Ele ficava horas procurando respostas para sua vida e seus problemas e viajava nas ondas do lindo mar que banhava a sua ilha. Lembrou-se daquele sonho estranho que teve com os guerreiros nos botes e pensou ter visto por um instante, um bote passando pela outra ilha ainda desconhecida por todos da Ilha das Cores. Ficou intrigado e observava atentamente a costa da ilha vizinha com esperança de ver algo, mas nada.

Certificou-se então de que era loucura decorrente de tantas preocupações e de tanta depressão gerada por Amanda. Então decidiu ir para casa e deu uma última olhada para a outra ilha e desta vez pôde ver claramente um bote, se abaixou e observou cuidadosamente o bote e sua trajetória. O bote contornou a ilha pelo sul e sumiu de vista.

Não acreditava no havia visto e foi correndo até a casa de Abanã para contar o que havia descoberto, mas Abanã achou melhor não acreditar nele, pois achava que a depressão havia o deixado louco e ele estava vendo coisas que não existiam realmente. Convidou Aram para entrar e contou que nunca existiu vida na ilha vizinha e que se esta notícia chegasse aos ouvidos de Anaití, ele poderia tira-lo a honra de guerreiro, pois iria acreditar que ele estava realmente enlouquecendo.

 A Loucura e a Razão

            Após conversar um pouco com Abanã e sua mulher, Aram foi para casa e tentou dormir, mas não conseguia. Lembrava do bote que havia visto na costa da outra ilha e imaginava se poderia ser loucura ou realmente pura verdade. Começou a planejar sua travessia para a outra ilha para descobrir se havia alguém na outra ilha e sua impaciência e sua ansiedade o fizeram levantar da cama mesmo antes de dormir e atravessar o mar que separava as duas ilhas. Passou pelos soldados que vigiavam as ruas de barro da tribo e foi para a casa dos barcos. Lá, encontrou um barco pequeno para duas pessoas e o colocou no mar e partiu em direção à ilha.

            Remou rápido e depois de alguns minutos chegava à costa da ilha desconhecida, onde aportou o barco. Começou a entrar na mata com intenção de encontrar algo e avistou uma clareira logo à frente por entre árvores e quando chegou lá, viu que se tratava de um rio que nascia no sul da ilha e terminava no seu interior.Por um instante pensou que por este rio que o bote poderia ter entrado e foi segundo sua margem até avistar ao longe o mesmo bote que havia visto de dia.

           Como não havia ninguém, ele se aproximou do bote, e nele tinham algumas coisas como espadas, e um saco. Ele abriu o saco, e dentro tinha uma pequena luneta que provavelmente era usada por eles para observação à distância e ele tomou-a e percebeu que alguém estava a caminho e correu para a sombra de uma árvore até que viu dois homens conversando e indo para o barco.

            Rapidamente adentrou a mata e foi na direção em que o barco estava aportado. Ao chegar, deitou-se no interior do barco e pensava consigo que isto não era um sonho, que era real. Estava amanhecendo e ele percebeu que realmente era tudo de verdade e não poderia ser loucura.

            Pegou a luneta e começou a manipula-la. Nunca havia visto algo igual antes. Estava apavorado com o que estava vivendo e decidiu remar de volta para a ilha logo, e o fez. Chegou, guardou o barco na casa dos barcos e foi para casa. Logo cedo, não teria treino e Abanã foi o visitar para ver como estava, e foram para o lado de fora conversar e dar uma volta. Aram disse então, ao seu amigo:

-         Diga amigo, para que veio?

-         Queria saber como estava.

-         Ontem fiquei preocupado.

-         Não precisava se preocupar. – disse Aram abaixando o tom.

-         Você dormiu bem esta noite?

-         Sim, dormi sim.

-         É que está com olheiras.

-         Ah sim. Estou um pouco cansado.

-         Por que não descansa?

-         Precisava falar com Anaití.

-         Falar sobre o que? Não pense em falar sobre a sua idéia maluca sobre a vida na outra ilha.

-         Mas é claro que falarei disso! Olhe o que eu encontrei num bote aportado na ilha vizinha nesta madrugada. – disse Aram mostrando à Abanã a luneta.

Ele ficou encantado e ao mesmo tempo assustado, e perguntou: – Para que serve?

-         Para ver longe.

-         Como?

-         Coloque seu olho neste orifício deste lado e aponte em alguma direção. – disse Aram enquanto Abanã olhava surpreendido pela luneta.

Abanã não acreditava no que via e disse a Aram que queria ir para ilha com ele e para que ele ainda não falasse a Anaití. Os dói se prepararam na outra madrugada e foram juntos no mesmo barco, mas pela outra direção. Desta vez, contornando a costa norte da ilha desconhecida. Eles estavam próximos à costa norte quando viram uma torra que surgiu de trás de uma pequena montanha. Encostaram o barco e foram mata adentro. Chegaram perto de umas clareiras, de onde podiam ver um vilarejo muito diferente do deles, que parecia ter uma tecnologia mais desenvolvida que a deles. Abanã ficou impressionado, pediu desculpas e para retornarem e assim se sucedeu.

A Verdade Mostra suas Faces

           No dia seguinte Aram estava à procura de Abanã quando inevitavelmente se deparou com Amanda. Ela parecia triste. Ele a achou estranha, mas não quis ter contato nenhum e continuou à procura de seu amigo quando Amanda apareceu em sua frente e perguntou porque não ia mais nos treinos e ele disse que foi afastado e ela perguntou em seguida: – Você foi afastado por que?

-         Porque eu não estava bem. Você me traiu.

-         Eu não te traí. Tive que me unir a Arani, pois meu pai queria isso.

-         Mas porque não disse a seu pai que queríamos… – Aram se cala quando vê Abanã e Anaití

Amanda não entende, mas permanece calada.

-         Quero que me mostre o que encontrou na outra ilha. – diz Anaití com ironia e Aram retribui:

-         Aqui está o que quer ver. – diz Aram mostrando a luneta.

Anaití analisa a luneta com cuidado e diz: – Bobagem.

-         Como, bobagem?

-         Isso não prova que existe vida na ilha desconhecida.

-         Mas…

-         Chamem-me quando estiverem certos do que dizem – interrompe Anaití que se retira junto de sua filha.

Ninguém Enxerga

            Amanda sente muita tristeza, pois Arani bate nela e a maltrata. Sente muitas saudades de Aram e decide bater em sua porta pela manhã. A mãe de Aram a atende e vai chamá-lo. Ele vem e quando a vê pergunta: – O que quer aqui, Amanda? Você já me fez sofrer muito por sua causa, não quero mais sentir dor.

-         Não diga isto Aram, eu sinto muito. Estou muito triste ultimamente. Estou pensando em contar a meu pai algumas coisas sobre Arani.

-         Que coisas?

-         Ele tem me batido e eu estou muito decepcionada com ele. Quero deixa-lo para ficar contigo.

-         Não! Não quero mais saber de você na minha vida. Eu até fui afastado por sua causa.

-         Perdoe-me Aram.

-         O que você quer de mim?

-         Seu amor.

           Neste momento, Aram para e olha profundamente para Amanda e diz emocionado: – Eu não posso voltar para você agora. Amanda se vira chorando corre pela chuva em direção à casa-grande. Ele permanece ali por alguns segundos e se vai.

           Amanda chega em casa e dá de cara com Arani na porta e ela se assusta. Ele, então, pergunta aos berros: – Onde você estava? Vamos! Responda!

-         Estava falando com um amigo.

-         Amigo? Que amigo?

-         Um amigo de infância.

-         Mentira! Você é uma mulher adultera!

-         Não!

-         É! – grita Arani com ódio e fúria enquanto acerta o rosto de Amanda com um tapa.

A mesma encosta-se na parede e permanece chorando.

-         Estou pensando em te deixar, Amanda. Não sinto mais o mesmo por você e por isso tenho te machuco sem querer. Eu não quero mais te ferir. Sei que é estranho, mas eu quero ser sincero com você agora, vou pedir a seu pai para nos separar. – Amanda fica confusa e em silêncio.

            No fundo gosta da notícia, e espera o que pode acontecer pela frente com a angustia do que aconteceu no seu passado, e a do que vivia no seu presente, mas não sabia se teria o seu amor de volta, pois Aram estava muito triste com ela.

 

Capítulo IV

A Idéia

            Aram estava confuso. Pela sua cabeça passavam Amanda e as idéias de vida na outra vida, que por sua vez, precisavam ser comprovadas para que tomassem os cuidados necessários no caso de um conflito. Será que eles querem nos enfrentar? Ou quem sabe se unir a nós? – pensava Aram no leito de seu quarto, á beira da janela enquanto olhava o mar.

            Eram dez horas da noite e Abanã batia a sua porta e entraram. Abanã também estava confuso, pois havia sido afastado dos treinos e todos agora os discriminavam. Você também parece atordoado. – diz Aram sentando-se perto da janela. É. Estou. – Abanã para, olha para a janela e diz:

-         Mas acho que devemos parar com esta idéia por algum tempo.

-         Não acha que corremos algum risco?

-         Sim, acho. Mas corremos risco de qualquer jeito. Se não provarmos que o que dizemos é verdade, podemos ser retirados do treino e então, podemos até ter fama de loucos.

Aram pensa e balança o rosto afirmando o que disse Abanã e após um minuto de silêncio diz:

-         Olha, pensei e já decidi no que vou fazer.

-         Então…

-         Eu vou provar que existe vida na outra ilha.

-         Mas…

-         Estamos correndo risco. Não podemos simplesmente desistir desta idéia.

-         Mas como vai provar que existe vida na ilha?

-         Só preciso de tempo para pensar.

-         Tudo bem. Espero que tenha uma boa idéia. Vou para casa, até mais.

-         Até mais.

E Abanã se foi. Aram pensava todo tempo em uma forma de provar que existe vida na outra ilha.Até que teve uma idéia.

No dia seguinte, foram os dois para a casa-grande falar com Anaití, e Aram lhe disse: – Olhe para a outra ilha ao entardecer com esta luneta e você vai ter a sua prova.

-         Como quiser. – disse Anaití sentindo-se desafiado por Aram

E foram Aram e Abanã para o barco e partiram para a ilha. Enquanto remavam, Aram contou o seu plano que pareceu perfeito para seu amigo.

Provando a Verdade

            Amanda perguntou a seu pai o que tinham falado e Anaití disse em tom zombeiro que iriam provar que havia outro povo vivendo na ilha desconhecida. Ela ficou intrigada, pois era uma grande curiosidade dela e ficou em silêncio.

            Enquanto isso, os dois amigos chegavam à praia da outra ilha e começaram a concretizar o plano de Aram. Primeiro Aram amarrou uma corda no barco e o deixou um pouco longe da costa à vista dos moradores da ilha. Depois esperou. Estava entardecendo e Anaití se preparava para fazer o que Aram havia dito quando o outro povo viu o barco e foi verificar o que havia no barco.

            Então, neste momento, Anaití se surpreendeu e se assustou com o que via. Era um barco um tanto mais avançado que o deles onde estavam cinco homens com espadas que remavam rapidamente para que logo alcançassem o barco de Aram. Chegaram ao barco e viram que não havia ninguém nem nada no barco, então retornaram para a ilha.

            Logo depois, os dois puxaram o barco de volta para a costa e então puderam retornar e ver o que achou o rei da prova que eles haviam apresentado.

            Chegaram e perceberam o espanto de todos da tribo ao saber da notícia e foram falar com Anaití. Ele desta vez, acreditando nos dois guerreiros, logo mandou que homens vigiassem os dias e noites da ilha com atenção redobrada e se prepararem para um possível conflito.

A Última Noite

           Após toda a confusão se acalmar e se aproximar a hora de dormir. Aram, que estava acordado, encontrou Amanda e ela o chamou para um canto escuro. Ela pediu perdão para Aram, e ele não respondeu. E então, sem pensar nem um pouco, Amanda o deu um beijo caloroso que deixou Aram agitado. Os dois, em meio à mata, se amavam e se acariciavam. Ambos se descobriam e se adoravam. Faziam amor com muito prazer e vontade. Estavam loucos um pelo outro e não sabiam nem o que faziam, mesmo ali, um lugar de risco para estas coisas. Eles permaneceram algum tempo deitados na relva e Amanda precisava ir imediatamente, e partiu. Aram arrumou-se e foi conversar com um dos guardas e contava sobre a vila que havia na outra ilha e foi dar uma volta. Enquanto andava, viu na outra ilha, uma pequena chama se acender. Ficou em silêncio e observava. Então se acendeu outra chama, e outras, assim por diante. Percebeu que eram muitas tochas, que entravam em botes.

Imediatamente chamou os guardas e todos os guerreiros. Após alguns minutos estavam quase todos armados escondidos na costa, à espera dos possíveis inimigos. Aram chamou um grupo de guerreiros e foram para as pedras. Vinham muitos botes cheios de guerreiros com tochas e gritavam muito alto.

Todos da tribo estavam apavorados, crianças, mulheres, trabalhadores entre outros, e se escondiam em suas casas. Amanda, da janela avistava os botes se aproximando e ficou a assistir o que aconteceria.

Quando um bote chegou, os guerreiros, todos com espadas, capacetes e armaduras de couro, foram para cima dos guerreiros nas pedras. Uma tropa de arqueiros, da casa-grande, atirava flechas nos invasores enquanto o sangue corria solto nas pedras. Abanã enfrentava os seus inimigos com coragem e bravura, e derrotava todos que o atacavam. Enquanto isso, outros três botes chegaram e a costa se via forrada de guerreiros e coberta de sangue. Outras tropas comandadas por Anaití chegaram e tudo parecia estar entrando em controle quando mais botes chegaram.                               A briga continuava e Aram também rasgava com ódio todos os invasores que se colocassem à sua frente. Vinham homens de toda parte, mas Aram não desistia. Tomava alguns golpes e se machucou um pouco.

Os Olhos se fecham para o Mundo

            Abanã gritava o nome de Aram, mas era impossível alguma comunicação naquele barulho tamanho que ecoava por toda ilha. Aram tinha dificuldades e foi golpeado no braço, mas erguia a espada e defendia com ira seu amado povo.

Por um instante, Amanda foi atrás de seu pai e viu Aram lutando. Parou e ficou a olhar. Aram a viu e ficou estático. Ela gritava para ele, mas ele não a entendia. Ele perguntou o que ela dizia, mas a comunicação era impossível neste momento, quando Aram viu tudo perdendo a velocidade. As espadas triscavam umas nas outras lentamente, corpos caiam e eram pisoteados. Sentiu um frio na espinha e olhou novamente para Amanda, que ainda gritava, e isto lentamente passava pelos olhos de Aram, quando sentiu uma espada rasgar a sua pele pelas suas costas e o seu sangue quente escorrendo por todo seu corpo frio.

Virou-se e viu seu inimigo covarde que o havia ferido, e com as forças que ainda tinha, ergueu sua espada e cortou a cabeça do invasor que caiu morto neste mesmo instante, e por cima dele caiu Aram, com um sorriso triste na face, e com uma dor profunda no seu coração.

Amanda chorava rios de lágrimas correu até Aram, e o beijava, todo ensangüentado e sujo. Então ela o olhou pela última vez e ele disse: – Me perdoe, Amanda.

-         Eu te perdôo meu amor!

-         Eu sempre te amei e quando tive a oportunidade de estar contigo, eu neguei. Perdoe-me.

-         É claro que te perdôo. Não diga isso, você ficará bem.

-         Não Amanda. Não ficarei bem. Chegou minha hora e a de muitos.

-         Mas não é possível!

-         Sim, é, e sinto muito. Mas você está bem, isto é o mais importante. Se vou morrer, morrerei feliz por isso. Eu te amo. – e fecha seus olhos num sono eterno deixando seu corpo no chão barrento e ensangüentado da costa da Ilha das Cores.

O Dilúvio

Amanda chora compulsivamente sobre o corpo de Aram, quando um trovão assustador dá início á uma chuva devastadora e densa que começa a alagar partes da ilha, onde a luta ainda continua ferindo o coração triste do mundo que se comove com esta batalha eterna e sanguinolenta.

O sangue manchou a terra, agora é lavado pela torrente que inunda a ilha inteira. A outra ilha também é atacada pela mesma torrente e começa a submergir na água que os cerca por completo. A luta que antes era entre o povo de uma ilha contra o de outra, agora é de todos contra a natureza, pela sobrevivência.      

A água vai invadindo toda ilha e muitos se entregam, sem forças para resistir, deixando para traz suas vidas, planos e sonhos.

Abanã tentou se salvar com sua mulher, mas ficaram presos na sua casa. A ilha já estava praticamente submersa e quase não haviam mais sobreviventes lutando para viver.

Amanda, num pequeno barco assistia o estrago que o dilúvio causara. A noite já chegava ao fim, o sol já vinha se pondo e o mar, era uma folha de papel sustentando a solitária navegação de Amanda e o filho que esperava de Aram. O barco seguia lentamente pelas águas e sumia-se de vista na margem do horizonte azul que dava contraste ao céu luminoso daquele dia maravilhoso que renascia dos mares para a nova terra, porém marcada…


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