[ o artista da morte ]

Foto: Susi Padilha/Diário Catarinense/AG. RBS (apenas ilustrativa)

               Uma multidão amontoava-se no meio da rua e fui ver o que se passava. “Que diabos está acontecendo?” – me perguntei. Aproximei-me de um senhor e o perguntei o que acontecia e este me disse que um infeliz havia sido atingido. Eu nunca tinha visto alguém morto antes. Toda aquela gente olhava impressionada para o corpo estirado no chão que tinha as entranhas expostas e sangue de verdade. Havia uma incógnita estampada no rosto de cada um. Não era possível imaginar o que pensavam. Viam-se ali, imóveis e pasmos com o que estava ao chão. Não sentiam pena, mas sim, curiosidade, e mesmo assim não se satisfaziam em vê-lo exposto, queriam saber o que ele pensava, para onde ele iria. A sua morte se tornava um milagre público. Aproximei-me de uma mulher que segurava uma criança no colo e a perguntei como tinha acontecido aquilo. “Foi uma briga de gangues” – me respondeu com aspereza enquanto seus olhos famintos devoravam aquele retrato polêmico que agonizava no asfalto. Eu não estava convencido do que me haviam dito e fiz a mesma pergunta para um garoto que estava perto do corpo, e este me disse que um homem que passava do outro lado da rua, que deveria estar entre nós, o havia acertado, e que talvez sua morte tivesse sido encomendada. A curiosidade do público era devastadora, pareciam esperar que o morto se levantasse e contasse o que havia ocorrido. Depois de algumas outras respostas, concluí que de fato que ninguém havia presenciado o acontecimento, e que de nada serviriam as hipóteses que me apontavam. A morte estava na rua; era uma obra abstrata… Talvez um ponto turístico, ou quem sabe uma exposição. Muito tempo se havia passado e ainda permaneciam estáticos. Cada um reservando seu lugar para o espetáculo da “arte de morrer”. Revirava-se pelo ar da rua o burburinho da multidão fundido ao silêncio da morte e eu olhava espantado não entendendo o que estava acontecendo. O movimento havia parado completamente para que todos pudessem venerar o cadáver estrebuchado no meio do caminho. Eu tinha coisas a fazer, mas algo me prendia ali, não queria sair. Estavam todos ali e o centro estava parado. Os bares estavam vazios. Trabalhadores, prostitutas, transeuntes, taxistas, empresários, entregadores, e eu, ali, ao redor da morte alheia. Certamente sentiam medo. Eu não sabia o que estava sentindo; talvez algo parecido com enjôo. Tinha um cheiro forte. Então, repentinamente uma senhora cortou a multidão até chegar ao morto e desesperadamente despejou sobre ele todo seu sofrimento. Pensei que fosse sua mulher ou talvez sua irmã. Ela chorava e soluçava gravemente sobre o corpo daquele homem e apertava a mão ensangüentada dele contra seu rosto. As pessoas aos poucos se afastavam. Reparei que a metade daqueles que assistiam àquele fenômeno já haviam deixado o local, e que outros continuavam a ir embora. Um som agudo trincou a frieza daquela atmosfera. Era uma ambulância que chegava rapidamente desviando de todos os carros até parar ao lado dos dois. Da ambulância saíram três sujeitos carregando uma maca, pegaram o corpo, e o levaram para dentro do carro. A senhora entrou também, fecharam a porta e partiram com a sirene gritando pelas ruas. A multidão foi se dispersando e tudo foi se acalmando lentamente. Eu não sabia mais para onde ir. Tinha me esquecido do que ia fazer. Olhei para os dois lados antes de atravessar e no final da rua a ambulância virou a esquina.


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