1#
Era noite e cruzou a rua a passos largos. Tropeçou no meio fio e caiu com as mãos sobre uma poça d’água.”Droga!” – pensou aturdido. O farol de um carro que passava mirou-lhe a face e ele escondeu-a imediatamente com as mãos. Parecia ruminar, pois estava com raiva. Assustou-se com um gato que cruzou seu caminho e percebeu a incoerência do seu andar. Era estranha a liberdade que provava naquela caminhada solitária. Saboreava furtivamente aquele fruto proibido num canto da cidade enquanto todos dormiam. Naquele instante, era livre. Certamente em suas concepções o mundo seria melhor fora de casa. Talvez longe das leis de uma família.
Odiava o tempo. Não suportava a sensação de estar sendo arrastado pelas horas, minutos e segundos como por um rio, sem poder fugir de sua correnteza incansável quando quisesse, até que algum dia toda aquela massa de água viesse a desabar na formosura de uma cachoeira. A morte era certa, mas o tempo não, e isso o incomodava. Quantas curvas fariam antes da “queda” final? O tempo era o vilão da sua vida; tanto por afasta-lo cada vez mais das maravilhas e dos sonhos da infância, quanto por censura-lo ainda das liberdades da maioridade. Sua mãe o mandava para o banho todos os dias, e ele pensava que ela nunca se importava se ele estava realmente disposto àquilo, e a todo o resto. Era cada vez mais difícil digerir aquela perturbação; era preciso desaparecer. Então, jazia sentado numa cadeira, fingindo ouvir seus pais que criticavam suas atitudes, suas notas na escola, seu comportamento, sendo que em sua mente incomodada e embaraçada, eles próprios eram – sem razões aparentes – os causadores de toda aquela febre que o desviava de seu caminho. Tentava por mal mostrar que assim era porque assim faziam, enquanto neste mesmo plano, reparava distraído o buraco escuro da fechadura, escalava a porta e pelo buraco sumia daquele momento e lugar.
Agora tinha o que queria. Era um menino na rua, e seus pais não o podiam alcançar. Procurava pelas ruas um lugar para ficar e sentia um medo frio. Aquela forma de liberdade sem dúvida, tinha o seu preço. Pagou por ela com sua solidão. “Tudo tem seu preço”. Estava angustiado. Eram inevitáveis as perguntas que invadiam sua mente procurando, sem seu consentimento, a explicação do porquê de tudo ter um preço, e novamente detestava lembrar que para todo efeito dependia do tempo. Queria que viesse logo a manhã do outro dia para que ele não precisasse dormir na rua. “Ah, se eu pudesse controlar o tempo… – suspirou e sentou-se no degrau de um edifício – mas é impossível” – assumia atordoado, e novamente uma avalanche de perguntas e de dúvidas o sufocava. A noite era diferente fora de casa. Nas ruas os sons estranhos causavam calafrios e de vez em quando passava um carro ou alguém que cruzava obstinadamente aquele deserto sombrio e que, rapidamente, pousava sobre ele algum olhar. Tal olhar que denunciava a sua solidão. Convenceu-se com dificuldade de que era vítima da sua própria liberdade. Ela mesma o impedia de ser livre, porque a sua idéia de ser livre era um vício, e vive-se em função de um vício assim como em função do tempo.
Planejava voltar para casa apenas depois de alcançar a maioridade, mas o grande problema seria suportar o tempo. Certamente sua liberdade dependia do tempo e seria inútil fazer planos. Percebeu-se novamente viciado na idéia de ser livre, encostou sua cabeça num pilar, esticou as pernas e respirou fundo. Pensava com dificuldade num novo plano. Sentia-se apagado, rasurado, e reescrito ao rever seus conceitos, assim como os seres humanos se sentem por estarem habituados a armar um mundo superficial a seu favor em vez de voltar-se a favor do mundo.
2#
Dormia tranqüilamente o casal. Uma goteira perturbava o silêncio do quarto e a sombra misteriosa que entrava pela porta contrastava com o branco da parede, onde rachaduras esboçavam uma floresta de árvores secas. Notava-se quase imperceptível o tique-taque mudo do relógio sobre a estante da sala. Uma gota caiu sobre Beto, fazendo-o acordar ligeiramente assustado. Lembrou-se logo de que precisava arrumar aquela goteira, mas que só seria possível depois receber seu salário miserável. Então, no tédio do sono partido, foi até o banheiro. Não gostou do seu rosto ao espelho. Algo estava diferente.
Foi até a cozinha passando pela porta do quarto de Jaime sem notar nada, acendeu a luz e viu que horas eram. “Já é tarde para voltar a dormir, só tenho meia hora porque hoje entro às seis e quinze”.– pensou enquanto analisava com sonolência o movimento dos ponteiros do relógio. Lembrou de Jaime; ele não gostava daquele relógio, mas Beto o achava muito bonito e pendurou-o no meio da parede onde recostava a mesa. Foi até a janela e o sol expôs o retrato cinza da periferia. “Eu ainda vou sair daqui e ir morar num lugar melhor, só preciso de tempo”. O tempo era a sua cura suprema. Aprendeu a arte da temperança quando pequeno, devido às péssimas condições de sua família que, no natal, quando todos da escola ficavam felizes e agitados com seus presentes, nada podiam dá-lo, e ele tinha que se contentar em esperar que o seu presente viesse depois; na outra semana, ou talvez no outro mês.
Procurou sua roupa no armário, vestiu-a, e logo após, os sapatos. O sapato estava apertado, pois há muito não os trocava por motivo de economia. Desceu as escadas com cuidado para não quebrar os degraus de madeira podres que gemiam a cada pisada e não reparou a mancha de umidade que devastava as paredes, como de costume. Fitou o seu casebre e orgulhou-se de ter onde morar. Cruzou a rua com pressa e virou a esquina na ladeira.
Sônia já havia acordado, como sempre, com o barulho de Beto se trocando, e depois que ele saiu foi ver que horas eram. Os ponteiros apontavam seis horas e pensou: “Vai chegar atrasado”. Levantou-se com dificuldade: não tinha dormido bem e tivera maus sonhos. Custava ainda para recompor-se do choque da sua demissão. Seria mais um dia em busca de um novo emprego, talvez em uma daquelas filas que dobram o quarteirão. Foi até a cozinha e preparou um café. O leite tinha acabado e não teria como comprar até Beto receber seu mísero salário de operário. Ela pensava muito nele, e preferia a época em que não tinham preocupações e só restava viver; mas agora eram adultos e o mundo tinha dado muitas voltas. O que mais a preocupava era o seu filho, queria o melhor para ele: o dava tudo que podia, e fazia de tudo para não deixar que se perdesse na desilusão da pobreza que os cercava. Olhou para o relógio da cozinha e lembrou de Jaime quando o criticava. Abriu um sorriso e teve vontade de beijar-lhe a face. Não percebia o que estava diferente, tal como Beto, mas ao contrário, decidiu ir até o quarto de seu filho. A porta estava entreaberta e uma cortina de luz dividia o corredor. Quando abriu a porta, viu que Jaime não estava e seu coração pulou e começou a tremer. Chamou Jaime repetidas vezes com uma voz enrolada, talvez pelo seu susto, mas ninguém respondeu. Saiu pela casa procurando por ele, mas não o encontrou em canto algum. Sentia falta de ar e sentou-se numa cadeira. Respirou fundo e seus olhos pequenos lacrimejaram brevemente sobre o rosto silencioso. “Será que fui muito dura com ele?” – pensou ao tempo que um líquido frio e espesso fluiu pela sua medula. Culpava-se por uma atitude que ela mesma julgava certa. Não quis perder mais tempo; desceu as escadas podres de sua casa com o maior cuidado e rapidez possíveis, e abriu a porta num só golpe. Apesar do sol já estar no céu, o dia não parecia claro como os outros. Havia um pássaro morto ao meio fio e um gosto ácido subiu-lhe a garganta até tocar de leve o céu da boca. O bar de Joaquim já estava aberto e meia dúzia de bêbados recomeçavam sua saga diária sobre os copos da desilusão. Chegou-se rapidamente e se dirigiu a Joaquim com um ar apavorado: “Joaquim, você viu meu filho?” E ele, com um sorriso triste, afirmou que não tinha visto nada desde que seu bar fora aberto. Um bêbado virou-se neste instante, olhou com dificuldade o rosto fatigado de Sônia e franziu as sobrancelhas. Coçou a barba molhada de pinga e disse secamente: “Ele se parecia com você”. Ela deu um salto de alegria, esforçou-se em conter aquela surpresa e perguntou ao bêbado onde ele havia visto o seu filho. Mas ele emudeceu-se, deu mais uma golada na sua pinga e apoiou o braço sobre o balcão. Neste momento um odor desagradável ancorou nas narinas de Sônia, que percebia a falta de higiene daquele pobre coitado. “Responde José!” – disse Joaquim aflito. E no próximo minuto José balançou a cabeça e num breve suspiro disse “Não me lembro”.
3#
Aquilo parecia um shopping, e os olhos de Jaime brilharam. Já havia ouvido falar num desses na sua escola, mas nunca tinha visto de perto. Sentia-se leve e brotava no seu peito um sentimento de descoberta: ”Meus pais não devem conhecer isso”. Foi se aproximando lentamente e reparando cada detalhe daquela fabulosa construção que soerguia fronte a seu par de olhos cálidos. Havia um brutamontes na porta com terno e gravata pretos que o observava cuidadosamente. Jaime, franzino, foi se dirigindo para a entrada e pôde ver dali muitas lojas bem iluminadas e pessoas que iam de cá pra lá sem rumo. Arrastou seus pés descalços por mais alguns metros e o homem da porta o impediu severamente com um tom autoritário: “Cai fora malandro, vá pedir esmola em outro lugar”. Ficou imóvel a contemplar o rosto duro e ranzinza daquele homem que o impedia de ser livre, assim como o tempo. Não entendia por que razão não poderia prosseguir como os outros. Seus pais nunca o haviam dito nada sobre isso e, aliás, sequer sabiam da existência daquele lugar. Aquele devia ser o centro da cidade; Jaime estava perdido. Sentia-se abandonado e ignorado. Uma mulher passou com uma menina e cochicharam. Atravessaram a rua e a calçada onde ele caminhava ficou vazia. Um ou outro lhe lançava um olhar penoso e até um homem que passava jogou uma moeda aos seus pés dizendo “Tome filho”. Na televisão de algum bar um homem que falava em acabar com a pobreza e com a fome fazia Jaime se perguntar quem este poderia ser. Foi até o balcão e perguntou se aquela moeda que ele tinha poderia ser trocada por alguma comida. O balconista olhou aquela moeda de cinco centavos que tinha cunhada a imagem de um líder revolucionário do passado, depois fitou o rosto inocente daquela pobre criança e deu-a um salgado. Observou o andar satisfeito daquela pequena criatura que desaparecia no calor do dia.
Era meio dia. O sol esquentava o asfalto, que queimava os pés descalços de Jaime, feito brasa. Uma senhora atravessava a rua lentamente e vigiava de esguelha os movimentos do menino que repousava na sobra da única árvore daquela rua. Um mendigo coberto de panos, trapos e cobertores velhos lembraria um andarilho do deserto. Talvez fosse um andarilho do deserto urbano. Jaime o dirigiu um olhar curioso e percebeu que o homem não suava, mesmo debaixo daqueles trinta e sete graus, e dos mais de três quilos de panos esfarrapados. Era um ser diferente, que passava com tranqüilidade pela calçada de passeio. O homem tinha o olhar fixo no firmamento. Parecia estar pronto para desabar a o final de qualquer momento. Talvez até não suasse por não ter o que suar. Seus olhos não tinham um só brilho e as palmas de suas mãos pareciam cascas de árvore. “Será que ele é livre como eu quero ser?” – disse Jaime com seus botões, ao tempo que uma bela mulher surgiu na curva da esquina. Ela carregava consigo uma bolsa pequena e um molho de chaves. Guardou as chaves na bolsa e retomou o dinamismo do seu caminhar. Rasgava o ar com seu suave rebolado e seus cabelos respondiam à vontade do vento. Um homem que estava sentado num banco da calçada, bem vestido, logo percebeu a sua presença e penetrou-a com um olhar intenso e cortante. Seus lábios se abriram e uma dúzia de palavras alcançou o ouvido da moça. Ela respondeu ”Idiota!”, apertou seu passo e passou pelo mendigo que ainda caminhava pela mesma calçada, e que nem se quer dirigiu-a meio olhar. Jaime voltou-se para o mendigo, que depois de alguns passos parou por um motivo oculto. De repente, percebeu um líquido escorrer pelos pés do andarilho: era urina que se espalhava sobre a calçada. Jaime olhava assustado para o homem, com uma impressão estranha no rosto, talvez de nojo. E o mundo continuava ao seu redor, sem nenhuma diferença. Jaime pensou: Não quero ser como esse homem, ele não é livre: não interfere no mundo, o mundo que interfere nele. Levantou-se e caminhou para longe dali.
4#
Beto sentiu uma gota de suor ácido escorrer pelo seu pescoço. Não gostava de se lembrar de que trabalhava numa fábrica de cinzeiros, pois além de odiar qualquer forma de fumo, era um emprego humilhante. Beto operava uma máquina que prensava a marca da empresa nos cinzeiros. Era um trabalho pesado, e ele sabia disso. Nas primeiras horas de serviço seus braços latejavam de dor e começavam a tremer. Depois de cinco horas fazendo o mesmo movimento, seus braços continuavam tremendo, mas já não os sentia mais. A esta altura, já fazia parte da máquina. Não conhecia bem o dia, pois quando saía para trabalhar ainda estava escuro e quando terminava quatorze horas depois, já era noite. As únicas luzes que tinham dentro da fábrica eram pequenas lâmpadas sobre cada máquina. Não podia se distrair para não perder o dedo, como um amigo de Beto, que no outro dia veio trabalhar com uma faixa no dedo. Manipulava a máquina, ou a máquina o manipulava, e tinha medo de pensar em alguma coisa. “Preciso tirar minha família daquele lugar” era o único pensamento que tinha enquanto trabalhava, e o único que justificava sofrer daquela maneira. Sentia-se um mártir de si mesmo, pagando pela sua própria miséria esperando algo em troca depois de uma curva qualquer de sua vida. Um olhar pesado curvou-se para o relógio, e não quis acreditar que ainda faltavam sete horas de serviço. Observou suas mãos trêmulas e seu corpo frio e quis ser de ferro, quis ser de aço, quis ser o vapor de uma máquina e desfazer-se no ar.
Aquele era o auge da indústria, e as greves surgiam como um grito nas ruas que se calava imediatamente sob a sombra da violência. Estavam cercados por falta de opções, e presos a terra por dívidas. Não tinham dinheiro para retornar a suas terras de origem. Eram restos que sobreviviam catando na miséria. Era uma classe ignorada, “uma classe eternamente insatisfeita” – diria um nobre ou um burguês. Os produtos simplesmente surgiriam nas vitrinas, ou nas prateleiras. Aquela fumaça cinza que respiravam era tristeza e quisera um qualquer viver em outro mundo. Mas não quisera um qualquer ser utopia. Sonhar seria utopia. Viver também, uns dias a mais. Então, optavam pela única alternativa: não viver. Um pouco de esperança era preciso para quem não tem nem um pouco. Nem um pouco de vida, nem um pouco de brilho no olhar. No murmúrio das máquinas e de toda aquela submissão escondiam-se as idéias de Marx, Bakunin, Proudhon entre outros; mas não estava ainda desperta a consciência destas camadas. Eram apenas pensamentos radicais demais. Não eram umas soluções para eles: era apenas o caminho, e uma máquina parou. O homem que a operava tocou uma buzina e muitos outros homens saíram juntos da fábrica e os outros foram atrás. Roberto não entendia o que estava acontecendo, um outro homem o explicou que era um movimento contra a exploração do chefe da fábrica. Todos saíram rapidamente e nenhum segurança pôde detê-los.
Batiam a porta e Richard K. se assustou. Num contragolpe abriu a porta e sua secretária tinha um rosto frio e assustado. Richard mandou-a chamar a tropa da polícia comandada por um aliado seu – especialista em reprimir manifestações de forma severa e desumana. Ele chegaria a alguns minutos. Richard sentou-se em frente a sua estante de livros. “O Manifesto Comunista”. “A Propriedade é um Roubo”. Riu-se. Silêncio.
Achava bonitas as idéias e teorias destes livros, mas não conseguia considerar-se igual a aqueles homens. “Eles pensam e dizem essas coisas porque eles não têm dinheiro”. Considerava aquelas idéias inflamáveis e agressivas. Não imaginava coisas boas quando pensava em comunismo, muito menos em anarquismo. Para os que a pregavam, guardava sempre um sinônimo na ponta da língua: vagabundos arruaceiros. No fundo tinha pena daquela gente, mas tinha mais pena de si mesmo, e por isso, todos aqueles que perdiam suas vidas, perdiam suas vidas para que ele pudesse manter a sua. Talvez fosse egoísmo, mas era apenas “sua vontade”. “A propriedade é um roubo, é verdade, mas antes eu o ladrão do que eles”. Abriu o livro e começou a ler.
5#
– Queremos o aumento dos nossos salários, e diminuição da hora de serviço, o cumprimento das promessas é que pedimos! Não temos o suficiente para nossas famílias, vivemos em barracos, queremos justiça. Viva Marx! Viva!
Roberto concordava com o que diziam, mas temia que aquela reação acabasse mal como as outras. Havia muita gente ali, todos os operários haviam deixado a fábrica e outros apareceram por lá. Era um tumulto, coberto de faixas e de sonhos antigos. Era um animal que queria se libertar, que queria ser gente. Estava emocionado, por muito tempo tinha esquecido de sua vida. O trabalho realmente era fatigante. Roberto deu um grito de apoio, quase extinto naquele emaranhado de palavras tecidas no ar. Sentiu-se por um instante sufocado pela luz do dia. Há muito não a via, era bela aquela claridade. Um pouco daquela esperança dava pontadas no seu peito e ele deixava-se convencer. Reparou um homem que carregava uma faixa e do outro lado da rua chegavam dezenas de policiais. Entre eles o general Amaro. Já o tinha visto com Richard uma vez. Roberto queria fugir, mas aquela multidão o impedia. A polícia avançou sobre os operários com cassetetes descendo sobre eles todo o ódio que tinham.
Roberto passava apertado no meio das pessoas. Umas fugiam, outras reagiam atirando pedras e pedaços de pau e outras olhavam. Era uma pequena guerra civil. Mas logo se notava que a polícia venceria outra vez.
Haviam pessoas feridas e pisoteadas no chão. E sangue. Roberto lembrou-se de seu filho e de sua mulher e pensou em se entregar. Levantou as mãos num sinal de rendição e outros dois fizeram o mesmo. Um policial os puxou com violência para a calçada enquanto o resto da polícia enfrentava a resistência. Ouvi-se um tiro. Fez-se silêncio. Abaixaram-se os que puderam, e um conhecido de Roberto caiu morto ao chão. “Ele tem dois filhos”. Roberto tinha um. Queria viver. Os outros todos se renderam e alguns choravam em torno do morto e gritavam indignados para a polícia. Estava acabado. E para a polícia era apenas mais uma vitória como as outras. Roberto foi levado para uma sala junto aos que se renderam e Richard explicou que estavam despedidos porque haviam largado os serviços para acompanhar os “vagabundos arruaceiros” mas não seria preso como os que reagiram à polícia. Sentiu um alívio e ao mesmo tempo uma dor no coração, estava sem trabalho e agora teria que procurar outro lugar para trabalhar. O tempo novamente o faria esperar, e agora seria mais dura essa espera, seria mais dolorosa, pois seus sonhos não lhe pertenciam mais. Pensava na sua família. “Sônia não pode saber disso”.
6#
Sônia pegou a bicicleta de um vizinho emprestada e foi para a cidade atrás de Jaime. Não gostava da cidade, pois lá percebia suas diferenças: não era como na periferia, onde todos pareciam iguais. Mas era preciso enxergar a verdade, coisa que nunca quis perceber, e que sempre quis que Jaime não percebesse. Não podia imaginar como Jaime reagiria se soubesse que a sociedade era aquela bagunça de camadas sociais, e que eles faziam parte de uma das mais baixas. Não queria que ele se sentisse mais fraco em momento algum, e nunca incapaz. Queria apenas que a figura desse mundo passasse desapercebida; assim tudo correria bem. Mas Jaime crescia como uma mula, e já não notava a diferença entre patos e gansos. Ela sabia que era preciso mostrá-lo que a faca não servia para desparafusar as coisas, mas sim para cortar carne. E tantas outras coisas como assoar o nariz com guardanapo e mastigar de boca fechada. “Ele me aporrinha tanto: tira notas ruins na escola e ainda foge de casa”.Mas ela que havia sido derrotada pelo medo. Apertou as pedaladas e olhou para frente.
O movimento da cidade era intenso. Estava preocupada com Jaime, temia que ele descobrisse a verdade sobre a sociedade e que fizesse alguma besteira ou que nunca mais voltasse para casa. Precisava ser rápida. Passou pela delegacia e pelo hospital, e logo em seguida, pelo shopping. O brutamontes na porta a dirigiu um olhar curioso e suspeito, parecia querer espanta-la. “Ele não pode estar lá dentro”. Passou pelo bar e pela única árvore da rua. Era uma mãe atrás de um filho, mas o mundo permanecia indiferente: toda a sua agonia não era nada mais que sua agonia, porque para os que passavam por ela, era uma mulher feia e velha sem o que fazer. Não quis a ajuda da polícia porque não queria que Beto soubesse. Esperava encontra-lo a tempo para que ele não soubesse do acontecido.
Quando já começava a se cansar avistou ao longe uma pequena sombra sobre o banco de uma praça. Seu coração disparou e já comemorava com alegria o encontro. Aproximou-se rapidamente e reconheceu a figura de seu filho. “Jaime!” Gritou com a voz distorcida. Seu filho a mirou um olhar curioso e esboçou um sorriso. Tomou-o nos braços e dizia repetidas vezes para que nunca mais fizesse aquilo, pois ela havia ficado muito preocupada.
- Está tudo bem com você filho? – perguntou a Jaime num ar desesperado.
- Sim, mãe. Tudo normal. – respondeu com tranqüilidade.
- Mas ninguém te tratou mal aqui? – disse enquanto olhava em torno deles.
- Não mãe, teve até um moço que me deu uma moeda de cinco centavos que eu troquei por um salgado no bar.
- Ah filho, que bom que está tudo bem! Fiquei preocupada! Não faça mais isso!
“Que bom que ele não percebeu nada, senão nunca me perdoaria. E ainda bem! Agora nossa vida pode continuar normalmente como se nada tivesse acontecido. Vou chegar em casa logo, preparar algo para o jantar e esperar Beto chegar”. Passava ligeiramente entre os carros com aquela bicicleta velha, entrou no bairro onde viviam e devolveu a bicicleta para sua vizinha. Era o fim daquela tortura, era um alívio. Sônia chamou Jaime e o disse para não contar nada para seu pai sobre o que havia acontecido neste dia. Já era escuro e logo Beto chegaria.
7#
“Vou esperar dar a hora que eu sempre chego para entrar em casa sem que eles suspeitem de nada”. Sentou-se numa calçada qualquer para aguardar o horário, e cenas da tragédia do dia ricocheteavam na sua mente como balas de metralhadora. Via seu conhecido morto no chão e pensava na família que esperava em casa o seu retorno. Pensava nos que gostavam dele, no que ele podia estar planejando fazer e que ficou, porque agora não faria mais. Era apenas um corpo sem vida. E quando sua família tivesse que ver aquele corpo? Aí então tentariam dize-lo o que queriam ter dito, pergunta-lo o que queriam ter perguntado e para nada mais ele poderia servir. Ou não, era um pedaço de carne, e de sua gordura fariam sabão. Acabaria como a espuma que desce pelo ralo. A realidade era tão dura e fria que parecia intocável. Parecia abstrata, surreal. E a morte, tantas vezes temida, engolida, e tantas vezes esquecida, parecia liberdade. Não queria morrer. Não queria, porque tinha filho e mulher. Poderiam talvez morrer sem sua ajuda financeira, mas ele pensava que talvez eles não achassem o mesmo, que talvez aquele trabalho e aquelas cenas o estivessem deixando maluco. Sua alternativa era reconstruir sua vida, procurar outro emprego e continuar vivendo.
Era hora de voltar para casa, chegaria na hora certa e nada pareceria estranho. Levantou-se e seguiu em direção a sua casa. Viu o pássaro morto na rua e o chutou para o outro lado. Arrumou sua roupa e entrou em casa. Subiu as escadas lentamente. As escadas rangiam. Lá estava sua mulher e seu filho. Beijou sua mulher e seu filho.
– Como foi seu dia? – perguntou a Sônia.
– Foi como os outros, procurando emprego pelos cantos da cidade – olhou para Jaime, e ele olhava para o relógio. – E o seu? Como está lá na fábrica?
– Ah, Tudo como sempre: aquele chefe sanguinário, os operários cabisbaixos… – acrescentou em um tom baixo para Jaime não ouvir.
– Não se preocupe, você arruma uma coisa melhor algum dia. – disse Sônia no mesmo tom.
Sim, é claro, e então… Vamos comer!
Sentaram-se todos a mesa, então comeram e conversavam como sempre foi, e Jaime não tirava os olhos do relógio. Após o jantar, como de costume, Sônia foi lavar a louça e Beto foi levar Jaime para a cama. Jaime deitou-se e seu pai beijou-lhe a testa. Disse boa noite e saiu deixando a porta encostada. Jaime olhava o teto escuro cheio de manchas e piscava os olhos rapidamente. Ouviu a porta do quarto de seus pais fechar, e a casa emudeceu. Mas Jaime ainda ouvia o tique-taque insone do relógio da sala. Deu uma piscada mais longa que as outras. “Nós somos pobres” – disse o menino para si mesmo no ar furtivo da descoberta, arqueou-se brevemente para a esquerda da cama, e dormiu.
Matheus Martini (2005)










