poesias

Estas são poesias em prosa e verso que escrevi, das mais antigas as mais atuais… Muita coisa perdi nesses tempos, espero recuperar mais do que produzi.


Abre-se a Janela da alma…

Primeira Fase (2004)

1. [ A Bolha ]

Não sorrio,
nem mostro minha triste face,
pois os que vestem
o manequim com minha carne,
fizeram com que minhas expressões
escorressem contra minha face
trazendo à superfície,
uma bolha.

2. [ A Chave ]

A chave abre qualquer porta.
Se desdobra em pensamentos,
Mais sugestões e respostas
Se completando ao mesmo tempo.
A chave guardo em qualquer gaveta,
Enquanto decido que porta vou abrir,
Ou que porta vou fechar,
Por onde vou sair.
A chave, eu conheço há muito tempo,
Mas há muito tempo procuro saber como usá-la.
Se é para fugir,
Para descansar de tudo isso,
Ela abre, ela fecha.
Você quem sabe.
A chave é um peso oculto,
Que você carrega sem saber,
É o disforme do pensativo
Sem forma ocular.
É o portal absoluto,
É o segredo,
É abrir e fechar.
É o saber.

3. [ A Dança dos Anjos ]

Vamos deitar nas flores
E ver de longe as nuvens brancas
O vôo das notas musicais
Nesta pauta traçada no céu.Me dê asas e voe comigo,
No balanço de tua veste,
Na clareza dos teus olhos,
Na pureza do teu olhar.Vamos passar a tarde inteira
Contando os grãos de areia
Desta praia em teu sorriso
E então, chegar ao mar.
Os lindos rios viajantes
Regam os jardins mais distantes,
E o amor está presente
Na árvore de nossas vidas.

As cordas dobram os acordes
As harpas choram suas vozes
E então, sigo seus passos
E deitamos nas flores novamente.

4. [ A Gota ]

Vejo uma gota cair.
Nela vejo o brilho da luz;
Nela vejo a escuridão;
Nela vejo o que tinha medo de ver.
O medo de ter medo, o medo de sentir.
Nela vejo a tristeza de todos os dias
Por não ter a coragem de enfrentar o medo
De enfrentar a vida, o medo de viver.
Mas agora, em um lento momento,
Ao mudo som do confuso e ensurdecedor barulho da cidade,
Ao cheiro da infeliz desesperança que escorre pelos bueiros,
Ao calor dos pensamentos que fluem por minhas veias,
Vejo a gota a cair.
Nela vejo o tudo e o nada se fundir,
Formando nada mais que tudo que nada pode significar.
Esta gota que cai.
Minha lágrima.

5. [ A Pedra Filosofal ]

Ando ausente,
Não sei o que fazer,
E não consigo entender.
Há algum tempo ando meio frio,
Até comigo mesmo me confundo.
Me desencontrei de um pedaço de meu mundo
Sentir a minha falta até parece absurdo.Estou perdido nas linhas do caderno,
Parado entre o outono e o inverno.
Os rabiscos não me mostram o caminho
Mas eu sigo até mesmo sem destino.
Tudo passa,
O tempo passa,
Isso passa,
A vida passa sem você perceber.

Ainda um dia eu consigo entender
Porque que o mundo nunca poderá mudar,
Porque as crianças, hoje, tem que trabalhar.
Por que a vida um dia tem que terminar?

Pois tudo passa,
O tempo passa,
Isso passa,
A vida passa sem você perceber…

6. [ A Tribo dos Homens Felizes ]

Quando olhava o céu,
Eu via o sol nascer
Sobre o lindo mar azul.Tudo parecia tão normal
Até um barco
Nos trazer a exploração.
Trabalho em troca de migalhas,
Nos enganaram, nos levaram o coração,
E o que nos pertencia,
A felicidade, a natureza, a beleza,
Em nome da riqueza de um brasão.

Assim, a tribo da verdade se perdeu,
E o grande império da tristeza, aqui, cresceu
Sobre o nosso sangue,
Sobre a nossa dor.

Hoje eu olho o céu
E eu vejo o sol nascer
Sobre o lindo mar azul.

Tudo parece estar normal
Até um barco
Nos trazer a exploração.

Trabalho em troca de migalhas,
Nos enganaram, nos levaram o coração,
E o que nos pertencia,
A felicidade, a natureza, a beleza,
Em nome da riqueza de um brasão.

A tribo dos homens…

7. [ Acordado, Calado e Distante ]

As portas batem com o vento
e o vento leva tudo embora.
Os olhos fecham com o tempo
e o tempo leva tudo embora.
As cadeiras não são para sempre,
um dia sentaremos no chão.
As estradas não são para sempre,
um dia seguiremos sozinhos.
Por que não quer abrir os olhos
e ver que não é um pesadelo? É só a vida real.
As canetas sujam o papel
e o papel vai embora com o vento.
As coisas vivem com a luz
e a luz vai embora com o tempo.
As paisagens não são para sempre,
um dia serão fotografias.
Os sapatos não são para sempre,
um dia andaremos descalços.
Por que não abrir os olhos
e ver que não é a vida real? É só um pesadelo,
acordado, calado e distante…
?

8. [ Além do Espelho ]

Quando me vejo aqui
Apenas não me sinto mais sozinho
A luz desenha meu rosto na água
A primavera floresce ao meu redorA amizade das cores não se acaba
O brilho das estrelas não se apagará
Enquanto eu sinto o teu calor
Eu tenho a luz do sol e o amanhecer
E quando eu sinto a sua falta
Eu nunca tenho nada pra fazer
E sinto frio e quero estar contigo.
Vamos fugir daqui
Estou cansado deste mesmo mar escuro
Vamos tomar outro rumo na vida
E navegar num outro mundo.

Onde a pureza dos sonhos não se acaba
E o brilho dos meus olhos não se apagará
Enquanto eu sinto o teu calor
Eu tenho a luz do sol e o amanhecer
E quando eu sinto a sua falta
Eu nunca tenho nada pra fazer
Eu sinto frio quando não estou contigo.

9. [ Aluga-se ]

Faces se cruzaram,
Rostos se marcaram,
E ainda estamos aqui
Neste quarto sufocado.Cartas se rasgaram,
Fotos se queimaram,
Precisamos fugir,
Nossos sonhos precisam de ar.
Mãos se separaram,
Olhos não se olharam,
Nada está no lugar,
Não lembro deste lugar.

Palavras não ouviram,
Gritos abafaram,
E ainda estamos aqui
Esperando algo acontecer.
Por que?

10. [ Amor Paradoxal ]

Vinde a mim, em brandas luzes,
Mesmo que em breve primor,
Mas que em patentes vozes
Na fuga deste desamor.E no beijo, o gosto estranho,
Novas vozes, novas luzes,
Desaprumo, tão tamanho,
Engenho de falaz instantes.
Imitado o gosto belo,
Incapaz de desalterar,
O que, tingido de amarelo,
Queria que fosse mar.

Sou rascunho do amor,
Feito sem mágoa e sem dor,
O que hoje, ávido, se sente no peito.
Sem saber, ao certo, se é perfeito.

11. [ Bandeira Desbotada ]

Embarcações saíram em busca do novo mundo.
Muitos se perderam, se encontraram, e naufragaram.
O mar que engolia seus desafiantes,
Inquieto, escuro e profundo,
Traria em breve do infinito horizonte, o futuro.Escuta-se um grito no escuro.
É o trovão da noite,
Que vem alagar o sorriso dos navegadores.
As águas se debatem desesperadas, fugindo das mesmas.
O ar turvo, cega os olhos da tripulação
Que luta para manter-se na superfície,
E o vento impiedoso que revirava o céu e mar daquela noite,
Se foi com as nuvens atordoadas da escuridão e absteu-se.

Refletia-se sobre o mar polido pela tormenta,
O que sobrou da embarcação,
Ainda suficiente para retornar à sua origem.
Mas um vento repentino soprou as velas encharcadas
E rasgadas da caravela em ruínas,
Que deslizou no azul das águas
Ao distante horizonte que escondia um pedaço de terra
Tão cintilante que até parecia ter luz própria.

Desenterraram-se vitória e também lamentações,
Mas enfim seus sonhos e desejos não eram mais poeira,
E com o ouro, água, plantas e madeira que encontraram,
Enriqueceram-se e aqui despejaram sua poeira.

Da poeira e do sangue de muitos,
Nasceu nossa bandeira, que hoje não colore mais o mesmo sonho,
Pois sofremos de pobreza, fome, miséria e de todos os males existentes
Fazendo do nosso país, um país doente,
Enquanto o ouro e as riquezas tiradas do nosso chão,
Enfeitam uma realidade longe de nossas fronteiras.

12. [ Bico de Pena ]

Sou uma bomba-relógio.
Eu sou o amanhã, vestido de hoje.
Eu sou o analgésico, vestido de dor.
Eu sou uma aquarela, vestida sem cor.Um cadeado me tranca na cadeira,
e por uma fresta, entre o gatilho,
entram as palavras, estagnadas,
sem calibre algum,
porque perdi minhas lágrimas,
para não sentir mais dor.

13. [ Borboletas Silvestres ]

Os galhos balançam suas folhas
Enquanto as fábricas espalham sua fumaça,
Os pássaros cantam em harmonia
Enquanto os homens matam uns aos outros.As asas batem e sobrevoam o abstrato
Num vôo lúcido do inconsciente sobre o mundo,
E ouvem-se vozes no abismo,
Elas dizem e contradizem,
Elas se enfrentam sem razão,
Elas discutem, sem princípio e sem fim.
Os olhos repletos de morte não amam,
Os rostos frios como a morte não sorriem,
Atitudes sádicas e inexplicáveis,
Crianças jogadas nas ruas.
Em meio à morte de todos os dias,
Continuamos vivendo,
E ainda pensamos em tudo isso,
E ainda estamos pensando,
E ainda estamos mortos.

Na lápide, crescem musgos e fungos.
Sobre o solo, enterrados corpos,
Crescem arbustos e arvoredos
Enquanto o suave chuvisco os refresca.
Florescem lírios por toda parte,
Me vejo cercado de vida, e de repente,
O cemitério é o lugar mais vivo do mundo.

14. [ Casamento de Viúva ]

Caminhada solitária
em rumo ao coração.
Nesta estrada centenária
sem placas de contra-mão.Rasgando o céu, em sete cores
escondem o pote de ouro.
Preciso de mais uns detalhes
para encontrar o meu tesouro.
Se em um dia chover
e eu não estiver por aqui,
eu juro que volto
com saudades de ti.

Se em um dia encontrar
o que queria achar,
vou seguir meu destino
sem saber aonde chegar.

Mas vou voltar
quando a chuva passar.

15. [ Castelo de Areia ]

Nunca perceberam
as minhas intenções.
Sempre me enganei,
fingindo que podiam ver.E hoje, a lágrima pesa mais
e a deixo escapar.
E hoje, já não me engano mais,
eu deixo a lágrima escapar.
Tudo é tão frágil,
que num sopro, vai ao chão
ou a onda pode até vir buscar
o que ficou perto da beira do mar.

Vou e volto com a maré,
vejo o céu e o brilho do sol,
e até os pássaros voando,
e mesmo assim, não consigo me levantar.

O amor que construí
não deixa derrubar
mas quando vejo que é areia,
deixo a lágrima cair.

Da torre, vejo o mar, tão calmo
que não poderá me alcançar,
mas desmoronam algumas partes
que o vento não poupou.

Eu deixo a lágrima cair,
mas ela se confunde com o mar.

16. [ Cavalos Alados ]

No trotear dos cavalos de areia,
Que se desfazem na fumaça,
A espada que resiste,
A caminhada involuntária.Os poucos que ainda sangram,
Ainda sustentam seu escudo.
A piedade sob o elmo,
De prata maciça adornado.
O vigor que ainda nos resta,
Ainda nos comove sem nos ter laceado.
Os lírios que nascem na rocha,
Não nascem no coração dos desgraçados.
Descontentes com o próprio ouro,
Descontentam todos os secos submersos,
Que ainda secos, clamam,
Que ainda submersos não se molham.

Todo o desamor que existe,
Reina nesta terra batida,
E seu semblante sanguinolento,
Mancha as nuvens de algodão,
As penas do pavão,
Os cabelos do trovão.

E sobram plumas,
Plumas de uma visão,
Plumas de uma ilusão,
Plumas que caem no chão,
Plumas do meu colchão.

17. [ Círculo das Tormentas ]

Passo horas viajando
Nas curvas sinuosas do teu olhar,
E nas profundezas,
O silêncio do mundo,
A lanterna dos desaparecidos
No redemoinho dos teus cabelos,
No escuro do seu quarto,
Na sombra de seu corpo,
No canto entre seus dedos.O sangue circula inquieto
Pelas veias quentes
Do corpo frio,
Sem sol, sem lua,
Imerso em lágrimas,
Cercado pela ira da tempestade,
Pelo desgosto do trovão,
Pelos assombrosos raios
Que fitam o medo.
Pela ventania devastadora
Que sopra sobre tua face
O temporal, a tormenta.
Os cabelos ondulados vibram,
Os galhos retorcidos tremem,
E tremem em silêncio,
E se curvam sobre a terra.

Percebo brevemente
Que estou inerte,
A olhar suas pupilas dilatadas,
Que desenham nos meus olhos,
Fartos de energia quântica,
Os dias bonitos, e os escuros,
Que são vividos um a um,
Na amplidão do indivisível,
Na calmaria do teu sono,
No descaso do inconsciente.

18. [ Com Amor ]

Deve ser tão bom o sexo com amor.
Se sentir amado e desejado.
Sentir o calor da paixão fluir em amor,
quando se entrega por completo,
sem restrições, sem vergonha, sem medo.
A sinceridade do amor sentido junto ao prazer
seria, então, a mais verdadeira cura para a alma.
A purificação da mente,
o relaxamento do coração.
Um sentimento às vezes pode parecer tão pequeno,
mas ele não é, pois tem força o suficiente
para mover todos, e então, o mundo.
O amor é tão importante quanto à vida,
pois quando não se tem amor,
facilmente se pode entristecer a alma,
deixando marcas que saem com o tempo ou não saem.
Queria saber o que se esconde atrás da cortina
que separa o medo do amor,
mas o tempo e o coração me pedem para esperar,
mesmo que possa doer a vontade,
mesmo que possa doer o amor.

19. [ Contagem Regressiva ]

Não adianta pedir ajuda
Ninguém vai me responder
Porque vezes sou tão chato
Quando tento fazer outros me entenderE este tempo que demora pra passar
Me diz quando vou embora
Quero ir pra casa,
Mas não sei o caminho de volta
Ontem é futuro, hoje é passado
Me da um presente ao seu lado
Estou perdido, desnorteado
Me dá uma bússola, ta tudo errado

No meio do caminho encontrei
Recados e vestígios que deixei
Para mim mesmo recolher
E agora pra entender? Aonde parei?

Não existe mapa do labirinto
tenho que tentar todos os caminhos
Às vezes penso em deixar tudo acontecer
Mas só fico parado sem me mexer

O futuro não virá me procurar
A vida é o caminho para o buscar
Como pode a vida se auto-resumir
Em um rascunho da virtude de existir?

20. [ Dia Qualquer ]

Me passou pela cabeça,
aquele dia qualquer.
Aquele dia sem graça,
sem gosto, ou significado.
Sem peso na lembrança,
sem sentido, sem dor.Meu encontro com a verdade,
a verdade absoluta,
meu mergulho no nada inconstante,
minha fuga do pesadelo,
há tempos, irritante.
Minha pedalada solitária no clarão,
minha grande descoberta,
que não terá para quem contar.

Andei pensando,
o quanto insignificante posso ser,
no dia de hoje,
para tanta gente,
para tantas pessoas,
que não me conhecem,
que não sabem da luta que eu tenho,
do sangue que perco no caminho,
do que sou capaz,
do que sou,
quem sou.

Só sei que neste dia,
tudo vai se acabar •será o fim de toda a história,
a hora de tudo perder o significado,
a razão e a direção.

A hora de tudo se redesenhar,
de tudo renascer novamente,
desde a semente,
ao galo cantar,
nós, novamente a caminhar,
novamente a roubar,
novamente a matar,
novamente ao novamente,
todos num domingo cinza,
em frente à televisão,
nas vitrinas para comprar,
ao menos alguém a lembrar, a pensar,
quando minha hora chegar.

Os dias vão terminar,
os copos se quebrar,
o tempo a congelar,
o mundo a derreter,
o coração a se revelar,
a vida a se refazer.

21. [ Diante de Mim ]

Entre faces e olhares,
entre sombras e vultos
sou só mais um desaparecido
em busca de mim.
Ali no meio de infinitas manchas no ar,
que dão forma a almas,
que dão forma a corpos,
que dão forma a personalidades,
que tiram minha forma.
Assassinaram minha forma,
de tal frieza,
não houve nem tempo
para que toda minha vida
passasse por meus olhos.
O que passou por meus olhos foi a escuridão
e uma dor aguda
que foi se afinando
junto das últimas batidas do meu coração
que ansiava respirar
em meio ao sufocado leito de morte.
Morri e continuei vivo,
assistindo de longe
meu corpo sofrer as dores da traição,
pois eu, me deixei ali,
só, a sofrer sem esperança da minha volta.
Eu me procurava no ar
e me assistia em minha busca por mim.
Eu ali desesperado, em frente ao espelho,
a me olhar.

22. [ Dilúvio ]

Ondas invadem a estrada
Que levava a um outro lugar
Longe dessa fumaça,
Que me impede de respirar.Nem subindo as escadas
Será possível escapar.
Quem quer se entregar,
Fechar os olhos e acordar.
O barco vai
Para bem longe desta confusão.
O sol distrai
O cansaço da tripulação.

Eu tenho medo do desespero
Que não me deixa descansar.
Eu sou tão frágil como o espelho
Que se fez na água do mar.

O barco vai
Para bem longe desta confusão.
O sol distrai
O cansaço da tripulação.

À noite, cai
Sobre meus olhos a escuridão.
E tudo vai
Se afundando na imensidão.

23. [ Doce Veneno ]

Teu corpo é veneno que teu perfume oculta,
De forma sutil floresce
E desabrocha em meus braços, aos poucos,
Em cada suspiro e sussurro…
Tua carne é doce e quente,
Eu a provo faminto, insaciável…
Teus pequenos tremores de prazer,
Como ondas mecânicas,
Percorrem meu corpo,
Que vibra como o seu.
Mordo teus lábios,
E só teus olhos, me devoram,
Só agora vejo o veneno que te compõe,
Mas já estou envenenado,
Não há como controlar os efeitos.
Sem espera quer que eu a tenha por completa,
A loucura já me conduz,
Teu corpo traga o meu, freneticamente,
A respiração é forte, e corpo dormente…
Quando teu corpo deságua no meu
Na mais pura dor do prazer…

24. [ Dois Mundos ]

Eu sou um sonhador,
Vivo dois mundos opostos
Cheios de filosofias e ideais,
Ao mesmo tempo ferido
E retido na realidade.Se é primavera na cidade
Ninguém percebeu
Sua presença é um milagre
Que não aconteceu.
Vamos pra casa agora
Sem saber do que acontece
Do lado de fora da sua casa,
Do lado de fora do seu quarto,
Do lado de fora da sua mente.

Se é primavera na cidade
Ninguém percebeu
Sua presença é um milagre
Que não aconteceu.

Vamos pra casa agora
Sem saber do que acontecerá
Quando os dois mundos colidirem.

25. [ Escravo, Anjo Na Solidão ]

Um anjo triste me contou
Numa noite de verão
Sobre a vida que levou
Naquela cega escravidão,
E só queria um copo d’água
Mas só lhe davam uns grãos de feijão.
Ele não tinha alguma mágoa.
Ele só tinha um irmão.
Mas a ajuda é tão rara
Quanto a água que pura se fez
E pensava assim: tomara
Que a sede não volte mais uma vez.

E eu perdi minha resposta
Não era só mais uma sugestão,
Era palavra forte e dura
Que entorta os dentes do vilão.
Que rouba doce de criança,
Sem pena e sem se arrepender.
Um cara que não teve infância,
E rouba pra tentar reviver.

O anjo já não tinha forças
E implorava por perdão,
Sem se quer ter um pecado
Mas por nascer destinado à perdição,
E sua vida, curta foi,
Morreu de sede e exaustão
Em um quarto sujo no porão
De mãos atadas e rosto no chão.

E hoje aquela dor virou prazer,
Mas não houve como esquecer
A escuridão se misturando pelo chão
Com o seu sangue e com seu perdão.
Já eram sete horas da manhã,
E seu irmão estava indo lhe encontrar,
Um copo d’água ele trazia em sua mão,
Mas não havia mais sede pra matar.

Ele dizia que sua morte foi perdão,
E lá em cima reconhecido ele foi,
E agora ele protege seu irmão,
Que agora está preso no porão,
Esperando a hora do enforcamento
Por ter roubado um copo d’água
Da cozinha do alojamento.

Ele só queria ver seu filho
Mesmo que brevemente antes de morrer.
Mas quando seus olhos se abriram,
O que viu foi o sorriso da vingança,
O sorriso da criança
Que foi ver ele morrer.

E eu não sei se é verdade,
Se quem me disse foi o vento,
Ou talvez o pensamento,
Mas então que seja a verdade,
Se já não foi, se é ou se será.

Pois não é tão fácil escrever
Histórias tão estranhas sobre dor,
Que anjos contam em noites de verão,
Isso quando não são de amor,
De um amor tão verdadeiro,
Que ao contrário o anjo viveu.

26. [ Espelho D’água ]

Por de trás das barras,
onde tudo começou.
Onde o homem se viu diminuído,
afastado e excluído
ante ao espelho.
Sem o antigo
e empoeirado sorriso,
que ficou nas barras de ferro,
passou a fermentar sua dor.

A dor envelhecida,
na poça rasa do meio-fio
da rua da delegacia
nos dias de frio.

O frio amargo,
no estômago do faminto,
afogado na poça do infinito,
dentre os buracos no asfalto.

De pensar que anos atrás
não sabia o nome desta rua
da delegacia, já ruída,
por de trás das barras,
onde tudo começou.

27. [ Esperança ]

Estou aqui no escuro te esperando,
Vem me salvar, por favor.
A dor do meu pulso nas amarras e correntes,
A ausência da luz do dia,
a esperança morreu antes que eu
E ainda te espero aqui,
mas você prefere me ver a sofrer,
Você não quer nem saber,
o que te importa é a vitória e nada mais.
Então não me importo,
siga seu caminho e não olhe para trás,
 Pois esta decisão é única e imutável,
mas diga que o sol ainda brilha
Para que eu morra feliz.

28. [ Estória de Amor e Dor ]

Aquela noite era ilusão.
Talvez um sonho estranho
Que tirei do pensamento,
Ou talvez um grande mistério,
Para sacudir meu coração.
Tinha razão, ou não?
Tudo em volta dando voltas
Sem lógica e sem direção,
E sem ânimo para questionar
Decidiu ir sem perguntar.

Ruas desertas o espionam
Pelo caminho na noite
Enquanto o piso vira pó,
E não pode se sentir,
Fugindo a dor e o prazer.

Segue dormente sem saber
O que o espera na esquina,
Do outro lado da avenida,
Até depois desta escada
Que leva ao sétimo andar.

Mudo, caiu de lá,
Sem sorriso, sem dor,
Tingindo o jornal e até as revistas,
Com a história mais bonita
Que todos vão conhecer.

Era um homem apaixonado,
Amava uma linda dama
Que muito o atraia,
E muito o atormentava
Todas as noites, na madrugada.

Se conheceram em qualquer dia,
Trocaram suas palavras
Trocaram seus telefones
Trocaram seus sentimentos
E viveram uma forte paixão.

Ela o deu seu coração.
Ele a deu toda atenção,
A amava intensamente,
Tão claramente, sem dúvida,
Uma eterna paixão.

Em um outro dia,
Estava estranha,
Insegurança tão tamanha,
Ele a questionava: Está tudo bem?
E ela respondia: Sim, meu bem.

Até que ela respondeu,
Que esperava um filho dele,
Ele ficou aliviado,
Ansioso e precipitado,
Foi fazer compras no mercado.

Ela não sentia mais o mesmo,
Tinha amado outra pessoa,
Seu coração estava indeciso,
Não sabia o que sentia,
Nem o que era preciso.

Ele estava muito feliz,
Comprava coisas para seu filho,
Até tocar o telefone,
Era ela um pouco nervosa,
Dizia que sentia muito.

Ele confuso fugiu preocupado
Atrás de sua mulher,
Que estava no hospital,
Mas quando ele chegou,
Não estava mais.

Perguntou o que aconteceu,
E a moça disse:
Ela abortou, eu sinto muito, meu senhor.
Ele disse: não,
Isso não está acontecendo não.

Saiu e viu sua mulher
Estava dentro de um carro
Beijando um outro homem,
Aquilo foi a maior dor que conhecia,
Acabava de perder a mulher da sua vida.

Sua alegria tinha sido passageira
Perto da tristeza absoluta
Em que acabava de mergulhar,
Se perguntava o que havia de errado,
E pegou logo seu carro e decidiu sair de lá.

Parou o carro
Na esquina com sua rua
E para esfriar a cabeça
Decidiu ir caminhar.

Segue dormente sem saber
O que o espera na esquina,
Do outro lado da avenida,
Até depois desta escada
Que leva ao sétimo andar.

Mudo, caiu de lá,
Sem sorriso, sem dor,
Tingindo o jornal e as revistas,
Com a história mais bonita
Que ninguém vai esquecer.

29. [ Estrada Sem Saída ]

Ei, aonde você vai?
Não precisa ir tão longe
Para alcançar o que foge
De ser alcançado.
Porque eu sei o que te espera
Do outro lado daquela porta
Que você não abriu.
Porque eu sei o que te espera
Do outro lado da janela
Que você fechou.
Era o arco-íris, tímido,
Que dava voltas no céu
Quando eu vi o dia clarear aos poucos
Junto do silêncio da sua cabeça oca.
Era a cor dos olhos,
Que se transformava em olhar
Quando eu pude ver brotar
Na sua mente, o crescimento inconseqüente.

Tudo está pronto para explodir,
Mas já não temos para onde ir.
Mas já sei para onde vou,
E sei como vou fugir.
Vou para onde o céu encontra o mar,
Para onde a lua encontra o sol,
Onde não tem bem ou mal,
Aonde a dor não vai chegar.
O sol pode iluminar um planeta inteiro,
Mas não o infinito do universo.
O segredo é acreditar.

Posso ouvir o telefone tocar…

30. [ Eu Sei ]

Eu sei que um dia tudo irá embora
E ficarei sozinho no meio de estranhos
Um cisco em meio ao caos urbano
Procurando pela vida nas esquinas
E não encontrarei,
E eu vou me perder.
Porque o que quero não está em qualquer lugar
E assim prosseguirei,
Um dia entenderei
Que nada é tão injusto quanto a voz
Que me diz o que fazer
E que me faz se esquecer
O quanto foi bom
O que eu livre fiz,
E agora só resta a dor pra se esperar, será?

Faça-se entender,
Deixe de se esconder,
Pois tudo clama pela sua aparição.
Queira ser alguém,
Não seja ninguém,
Seja você e não dê ouvidos a cadeados e brasões.

31. [ Existência ]

Um coração calejado,
Que disfarça defeito,
Retido no peito.
Fugiu sem deixar recado.
Mal amado, despercebido,
Enganado, possuído,
Alugado, programado,
Vendido, comprado.

O dinheiro compra uma pedra,
Não compra um coração
Feito de sonhos, de sentimentos.
Composto da vida,
Que ninguém soube como explicar.

A vida, reflexo do impensado,
Feita a partir da gota,
Lágrima da mãe solitária,
Grávida ansiosa,
Filha da esperança.

O mundo, o óvulo,
Que não sabe nascer.
A morte, o prazo,
Que não há como estender.

O passado, a lembrança,
Impossível alterar.
O eu, o universo,
Que eu não posso explicar.

Mas se a resposta
Não cabe no meu pensamento,
Assim sendo,
Não existo.

32. [ Gaveta Elíptica ]

Solidão, leito do meu lar,
eu procuro pela cura na gaveta.
Tempo passa, mas não vejo
os ponteiros se movimentar.
O mundo pára à minha espera,
sou um intruso na tramóia,
não queriam que eu soubesse,
não era para eu enxergar.

Procuro a cura no infinito
da minha gaveta bagunçada,
que mais parece a elipse
da resposta que procuro.

33. [ Glamour ]

Glamour,
Sabe quando da uma vontade de correr com o pé quebrado,
aquela vontade de cantar com a garganta inflamada,
a vontade de escrever, mas sem inspiração,
a inspiração sem vontade de escrever?
É até difícil entender,
assim como escrever,
agora que estou procurando meu glamour.
Gotas de suor umedecendo o papel,
o quedar da ponta do lápis na mesa,
a estrada vazia que são estas linhas,
que percorro sem chegar à nenhum lugar.
O som da cidade entra no quarto sem bater,
as nuvens cinzas passando no céu sem molhar,
o pássaro passa rápido pela janela sem me ver,
meu glamour foi descansar mas volta no aniversário.
Quero tanto esquecer disso e até fiz uma escada nas linhas,
que eu vou subindo mas acabo chegando no que eu quero esquecer,
no glamour que eu não sei onde está.
Do alto da escada posso ver meu sacrifício para escrever,
e também posso me ver aqui em baixo dizendo o que posso ver,
mas não posso ver o Glamour,
e a escada que leva até ele está ao contrário,
então eu prefiro ficar por aqui,
eu vou esperar até que eu possa escrever o Glamour novamente.

34. [ Gruta de Cristal ]

Meu corpo é minha igreja,
Meu coração é meu altar.
Quem procurou tanto,
Não conseguiu encontrar.
Este é o tesouro
Mais bem escondido,
Que não corre perigo
De alguém encontrar.

Porque sou eu quem está aqui,
E aqui, posso encontrar
A paz que preciso
Para poder descansar.

Minha igreja não tem nome,
Nem endereço para você visitar.
Minha igreja não tem padre,
Porque não há ninguém,
Que possa me ensinar sobre mim,
Como eu.

35. [ Hamiro ]

Hamiro não tem medo de morrer.
Sentiu que aquilo não iria acontecer.
Cinco horas no relógio do morcego,
e ele nunca foi dormir, assim, tão cedo.
Raios caindo,
Ingressos sobrando,
Gastaram no vinho,
A grana do ano.

Hamiro vendo o lindo entardecer,
da janela do malhado mato seco.
Quero sair mas caio sempre nesse beco,
me da um mapa pra encontrar o meu sossego.

No mar vermelho,
aos poucos se abrindo,
magos e magos,
vão prosseguindo.

Hamiro sabe que vai acontecer,
ficou calado pra manter o seu sossego.
Ele sempre soube desse renascer,
sabe, nesse dia não tem jornal nenhum vendendo.

E nas vitrines,
não tem desconto.
Ruas vazias
ao meu encontro.

Calças sozinhas
esperam no ponto
o ônibus roxo
sem motoristas,
sem acentos,
sem portas,
e sem janelas,
sem movimento,
só pela força
do pensamento,
e vem bem próximo
tão veloz e tão lento,
e vem tão longe,
tão retardado pelo tempo.

Hamiro, simplesmente, é só mais um dos passageiros
tentando adentrar com uma cadeira no aposento.

36. [ Iceberg ]

Por que o coração dói?
Estará ele cansado?
Estará ele ferido?
Será ele insaciável?
Por que o amor dói?
Estará ele queimando?
Estará ele ferindo?
Será ele inabalável?

Por que a dor atinge o homem?
Por que não é possível escapar?

Tenho vontades que me incomodam,
e medos que me atormentam,
problemas que me inquietam,
margens que me comprimem,
horizontes que me cegam.

37. [ Identidade ]

Você no escuro do seu quarto,
Eu na neblina de ruas desertas.
Busco por mim, vou me encontrar,
Em qualquer esquina
De uma rua qualquer,
Sozinho a me esperar.
As lentes se trincam de frio,
Os olhos não vêem o escuro,
Vozes se distorcem ao vento,
A qualquer instante, desperto.
Desperto do sonho real,
Da vida imaginária,
Do fruto irracional,
Acordo na minha cama novamente.

Os olhos se abrem para o esquecimento,
Não é possível recordar sofrimento,
Dor que doeu muito por dentro,
Sem motivo ou até mesmo sem saber.
Agora não sei quem sou, quem fui,
O que sofri, o que doeu.
Sei que eu queria esquecer,
Nem que fosse só por hoje.

38. [ Invasão ]

Já que estou aqui,
de pulsos cortados,
vulnerável, exposto por completo,
visto por inteiro
e seguro em minha mão,
a dor ressurgida das cinzas
da última gota de sangue
que derramo sobre este solo de sabão,
já posso me render às nuvens de chumbo
que pairam por este fragmento de mim.
Estas minhas sobras
que se mostram imunes ao vento
e fracas ao apodrecer
se enfraquecem ao se revelar ao meio,
ao se mostrar obrigatoriamente,
ao parecer fracas por se esconder,
ao parecer fortes por resistir
a esta tempestade de pólvora
que atinge meu corpo exposto
que esconde meu frágil fio vital.
Tudo mudou em um segundo.
O segundo em que me dissecaram
para mostrar minhas mais profundas intenções,
e prosseguiram em busca de mim,
desrespeitando as portas do meu esconderijo,
dando origem a esta invasão do meu.

39. [ Insônia ]

Em meio a vagas luzes,
em vagas cidades,
em vagas noites longas,
em que se estendem
os pensamentos.
No copo de café,
na janela do quarto,
vendo o céu estrelado,
ouvindo o canto da maré.
Cultivando, assim,
a minha insônia.

Estrelas, vaga-lumes,
luzes dão profundidade
a este céu ilustre,
por onde, na noite,
navegam os mais belos sonhos.

Caminho na lembrança,
e lá eu te encontro,
tão linda, meu amor,
como eu queria
mais um de seus beijos
para o meu descanso.

Porque seu beijo acende o céu,
e posso ver seu sorriso
no horizonte,
me aquecendo, me alojando,
no leito da cama,
dentro do sorriso
que você trouxe para mim.

Agora, eu durmo tranqüilo,
com o gosto do seu beijo,
com o seu sorriso,
e navego no céu
pensando no nosso amor,
o meu mais belo sonho.

40. [ Jardim de Rosas ]

O importante não é saber
De que lado está,
Nem se obrigar a escolher
Um lado para ficar.
Quando se cerca de espinhos,
A única saída é sonhar,
Se sonhar não tem perigo
Da gente se machucar.

Porque o despertar cicatriza as feridas,
E o sono não tem gravidade.

É mais difícil viver um sonho,
Do que sonhar uma realidade
Porque o tempo pára a qualquer instante
Mas não temos hora para acordar.

A vida era um sonho impensante
Até o homem aprender a matar.
Já não estaremos mais tão distantes
Quando o homem aprender a amar.

Porque o despertar cicatriza as feridas,
E o sono não tem gravidade.
Porque o despertar cicatriza as feridas,
E a vida não é de verdade.

41. [ Luta dos Ventos ]

O silêncio é o que distrai
O som dos ventos do infinito,
E no céu, flutuam nuvens
Que vão para bem longe da cidade
Se desfazendo no horizonte,
Onde se desfaz o longo olhar.
Os ventos cantam e assoviam
O romance mais bonito,
E vão vagando indecisos
De seu próprio caminho,
E se enfrentam em silêncio
Sem despertar o desafio.

Das nuvens mais altas,
Gritaria as palavras mais fortes,
Para pegar as doces lágrimas
Das estrelas mais brilhantes,
E então, poderíamos matar a sede
Deste mundo de saudades dolorosas.

Sem carinho, o amor vive agora,
Sozinho no escuro
Dos caminhos mais estranhos.
Sem revelar esta verdade
De que faltam muitos rios
Para banhar de pureza
As flores secas, incolores, sem cheiro,
que enfeitam as janelas da vida.

42. [ Mar Vermelho ]

Tudo hoje se tornou tão complicado
Que até os mesmos olhos se enganam
Onde está aquele amor?
Onde está você?
As respostas se escondem nas perguntas
Onde nunca, então, tentaram encontrar
Onde está sua questão?
Onde está você?

Em algum lugar distante
Por isso, sigo adiante
Então, eu vejo o horizonte
Que está a meu alcance

Estes medos nos distraem o caminho
Tortuoso e capeado de desastres
Onde está a sua paz?
Onde está você?

O contraste tira a cor da nossa terra
Cada vez mais dedicada à maldade
Onde está a corrupção?
Onde está você?

Em algum lugar distante,
Por isso, sigo adiante
Onde tudo se esconde,
Dentro do seu coração.

43. [ Moinho de Vento ]

O sonho se propagou,
E já estamos muito longe
De onde tudo começou.
Já sabem aonde vão e como podem chegar,
Já eu, não sei.
Eu procurei por todos os cantos,
Em todos os livros,
Em todas as revistas, me encontrar.
E até na lágrima
Que derramei sobre o papel
Onde meu nome escrevi.

Tudo se desconjuntou
E a ternura já é dura
E já não dura tanto mais.
O tempo se deitou no velho engenho,
Que sem vento, parou.

Eu procurei por todos os cantos,
Em todos os livros,
Em todas as revistas, me encontrar.
E até na lágrima
Que derramei sobre o papel
Onde meu nome escrevi
Por não saber quem sou eu,
Por não saber como voltar,
Por querer acordar
E ver que tudo é mentira,
Mas não me recordar
Do que pensava
Quando eu me deitei.

44. [ Não Quero Partir ]

Queria te ver agora, neste instante
Em que eu estou indo embora.
Queria te mostrar agora, neste instante
Que eu não queria partir.
Mas eu vou, e não dá pra retornar.
Mas vou lembrar de todos
Os nossos bons momentos juntos.
Tudo foi tão lindo e perfeito,
E só reclamei do que foi ruim
Desvalorizando o que foi bom.

Queria poder lhe dizer que eu estava errado,
Que tudo foi tão bom, e eu não entendi.
Dizer que você foi tudo na minha vida,
E que ela sem você, passaria despercebida.

Queria que soubesse
Que nunca me fez sofrer,
Eu simplesmente sofri,
Por não saber controlar
Meu sentimento por você.

Você foi o açúcar e o sal,
O amor intenso, até explosivo,
Me deixou saborear cada momento
Um a um, e cada um dos dias
Que sozinho, nunca teria.

Queria te beijar pela última vez,
Sentir o que eu poderia ter sentido
Naquele dia em que eu não me despedi direito
Pelo que me abateu por ciúmes,
Que eu poderia ter esquecido.

Agora vou, e não mais te verei.
Só restou o gosto da agonia na minha boca,
Por não te dar o prazer de saber
Que tudo o que você fez por mim foi o suficiente,
Que estou satisfeito com o que te foi possível me dar.

Agora vou rumo ao desconhecido,
Talvez vá para um lugar melhor,
Ou talvez não exista lugar algum
E me decepcione com a escuridão absoluta.
Meus olhos ainda podem imaginar você.

Mas agora vou sem medo do que virá,
Vou partir, vou te deixar,
Te amei muito, não vou esquecer
E vou saber de tudo aquilo
Que eu tenho que saber.

45. [ Num pé de Escada ]

Aqui, num pé de escada,
Procuro palavras para explicar
Como estou me sentindo por dentro,
Como sinto o tempo passar.
Me sinto em um lugar distante
Me controlando a todo instante.
Sinto uma vontade de gritar,
De deixar tudo escapar.

Tenho a chave na mão.
Se eu quero ir, eu vou,
Se eu quero ficar, eu fico,
Se eu quero voltar, eu volto.

Vejo as folhas caindo,
As folhas dançando,
O tempo passando,
As horas andando,
Os minutos correndo,
Os segundos voando,
O poema acabando,
O começo e o fim.

46. [ Oásis de Mármore ]

Que sol tímido este,
que se esconde atrás das nuvens
destes dias, tão escuros,
que a sólida solidão congela.
E estas noites, tão cinzas,
tão carentes de estrelas.

Marte de passagem,
se esconde na poeira,
e a ferrugem que inibe a translação,
é comparada à nossas vidas.

Não sei se é miragem
ou se foi o plano que falhou
porque a poeira é tão forte
quanto à ferrugem
que impede o homem de pensar.

47. [ O Cego e os Cinco Sentidos ]

Minha visão é tão estranha,
não vejo o que os olhos olham.
Vejo por entrelinhas no ar.
Não vejo o anjo que passa cego.
Nem escuto sua surda voz.
Vejo em mim todas respostas.
Minha audição é tão estranha,
não escuto o que os ouvidos ouvem.
Escuto por freqüências interpolares.
Não vejo o anjo que cego passa.
Nem escuto sua voz surda.
Vejo todas respostas em mim.

Meu tato é tão estranho,
não toco o que as mãos tocam.
Toco por frações compassionais de siso.
Não vejo o anjo cego que passa.
Nem escuto sua ensurdecida voz.
Vejo em mim todas respostas.

Meu paladar é tão estranho,
não saboreio o que as línguas saboreiam.
Saboreio por amargos e doces extrínsecos.
Não vejo o anjo cego passar.
Nem escuto sua surda voz.
Vejo todas respostas em mim.

Meu olfato é tão estranho,
não cheiro o que os narizes cheiram.
Cheiro por entreventos que desemboscam ares.
Não vejo o cego que passa.
Nem escuto sua surda voz.
Vejo todas respostas cravadas em mim.

Porque, o cego, já cansei de ver não vendo.
Porque, o cego, já cansei de ouvir não ouvindo.
Porque, as respostas estão em mim,
este cego, surdo, que caminha por entre minhas perguntas.

48. [ Olhos Fechados ]

Eu era feliz.
Vivia em um mundo sem fronteiras,
sem países e sem bandeiras.
Todos eram um só.
Eu adorava subir nas árvores,
nadar pelos rios e lagos,
sentir o gosto do fruto puro.
Tinha um banquinho,
que eu adorava sentar nele,
olhar pela janela
e ver os pássaros passando,
o sol à brilhar,
o tempo à passar,
e em um belo dia,
tive um sonho.
Nele, pessoas se matavam,
brigavam por terra e dinheiro,
era o fim de tudo que tinha sido bom.
Derrubaram as árvores
nas quais eu subia.
Poluíram rios e lagos
nos quais eu nadava.
O fruto,
já não tinha mais seu verdadeiro gosto.
No meu sonho,
ao sentar no banquinho que eu gostava,
não vi mais pássaros pela janela,
somente as nuvens de tempestade.
O sol, já não brilhava tanto,
o tempo ficou preso nos ponteiros,
e nesse dia,
não acordei.

49. [ O Que Há de Errado? ]

Discriminadas.
O fio da faca
corta a frio
até a mão gentil.
Enfrentando contra-tempos,
enfraquecidos pela dor
aguda da ignorância
que dispara a mil.

Acostumadas.
Incapazes de vencer,
o próprio medo ardil,
que de tão quente,
esquenta a lâmina
para exaltar seu fio.

Mas, para quê?
O que há de errado,
se a dor,
a qual se queixa,
não está em sua mão.

Em um zelar doentio
que seus olhos podem ver,
e que você nunca viu.

Está tão longe
do que pensa
que é tão real.

Está tão perto
do que corta
com a faca
e nem mesmo,
sentiu ao certo.

50. [ Obra Abstrata ]

Num dia em que sonhei,
Eu surgi dos rabiscos
De uma obra abstrata,
Trajando o infinito
Sem rumo e sem rota.
Tudo era fumaça,
Até o sol, as estrelas,
Todo o grande espaço,
O céu, cada único passo.
Uma porta fechada no nada.

Meus olhos não viam,
Meus pensamentos fugiam,
Minha mente se esquecia
Da lógica, do nada, quando eu,
Fiz esta obra abstrata.

51. [ Pedra Sobre o Sol ]

Meu coração está dormente,
em constante luta com a mente.
Meu corpo me cobra,
mas o vento me dobra,
e a dor me desespera
à medida que tudo é espera.
Ainda é fácil sorrir,
e também chover,
mas é difícil dormir
sabendo que amanhã,
o sol não vai nascer.

Onde está o amor?
Qual o sentido da dor?
Será que dor é amar,
e que amor, é doer?

Minhas mãos cansadas,
minhas horas passadas
no mesmo lugar,
para que servirão,
se o sol não nascer amanhã?

52. [ Ponte de Mentira ]

Carnado a meus sentidos,
Até tapando meus ouvidos
Ouço gritos tão sofridos
Que não sei de onde vem.
Olhei nos olhos da mentira
Com um desgosto tão vil
E gritei com tanta ira,
Que ela, ao meio se partiu.

Aprendi que sob lei viver,
É como debaixo da ponte morar,
E que sobre a ponte passar,
É como, acima de tudo, ser livre.

Muitos debaixo da ponte vivem,
Muitos debaixo da ponte moram,
Pois muitos não tem culpa, e nem prazer,
mas não têem culpa.

A culpa, não tem dono,
Abandonada, vive nas ruas,
Longe da mentira,
Que é esta ponte.

Oh, fuga do mundo,
Recanto da verdade,
Abrigo dos sem lar,
Me dê onde morar.

53. [ Por Um Dia ]

Se por um dia, tivesse força,
varreria o mundo em nove dias,
lustraria o céu e as nuvens,
trocaria as horas pelos dias
para ficar mais tempo com você.
Se por um dia, tivesse força,
seguiria contra a gravidade,
trocaria a bateria do mundo,
subiria na mais alta montanha
para ver o sol nascer novamente.

Se eu tivesse força,
levantaria do chão neste momento,
seguiria contra a gravidade,
encontraria o ladrão da minha força,
e varreria o mundo em nove dias…

54. [ Primavera em Cinzas ]

Onde está nossa coragem?
Onde estão as flores deste mundo?
As cinzas são nossa saudade
E o fogo expressa maldade.
Encontrarei o meu descanso
No meio de ruínas
Mas um dia eu te vejo livre e segura.
Mas um dia eu volto pra te ver voar.

A pena decora a paisagem
O sol colore a folhagem
O medo serve de maquiagem
E a morte é nossa coragem

Encontrarei o meu descanso
No meio de ruínas
Mas um dia eu te vejo livre e segura.
Mas um dia volto só pra te ver voar.

55. [ Redenção ]

Quando todos os gritos
soam como um só
no solo da batalha,
entre palavras escorridas,
passos cruzados,
pulsos parados,
palavras sufocadas,
sonhos enrolados na mortalha,
até no olhar arrependido
da mão que puxa o gatilho
para acabar com a espera
do nosso grande tempo perdido.

56. [ Relógio de Sol ]

O dia passa
E as horas levam
O tempo que restou.
Dias se estendem,
Tempo não passa
No dia que o relógio de sol parou.
Estavam imóveis todos os raios
Que um dia o relógio de sol traçou.
Não se moviam,
Não mais sorriam,
O sorriso o tempo levou.

Calaram gritos,
Fecharam ouvidos
No dia que o relógio de sol parou,
E eu já não estava mais aqui,
Dos ponteiros do relógio estava a fugir.
Mas ele já não tinha mais razão,
No dia que o relógio de sol parou.

No dia que eu parei o relógio de sol.

57. [ Retrato Antigo ]

O retrato que eu tirei,
Já não parece mais comigo
E as pedras que tropecei,
Hoje, constroem meu abrigo.
Pelas montanhas,
Sigo meu caminho
Longe do perigo.

Neste silêncio,
Deste longo sono
Sem ruído,
Eu cresço demais.

Quando não choro
Eu estou em paz
E nada se desfaz.

O retrato que eu tirei,
Já não parece mais comigo
E as pedras que tropecei,
Hoje, constroem meu abrigo.

Pelas estradas
Sigo solitário
Rumo ao horizonte.

Neste momento
Deste lindo dia
Sob a ponte,
Eu sonho demais
E nada se desfaz.

58. [ Rosa dos Ventos ]

A alma é um vagão sem rumo,
A dor e a incerteza são a escolta,
Que seguem trilhos de caminhos onde sumo,
Quando o amor é uma viagem sem volta…

59. [ Sorriso Magoativo ]

Minhas palavras inflamadas,
meu prazer adormecido,
que dedilho todos os dias
tentando lembrar o prazer esquecido,
das palavras que eu guardei.
Meu amor inocente,
meu medo do desconhecido,
que encaro todo instante,
tentando esquecer o medo lembrado,
do amor que eu não conheço.

Capeado pelas quatro paredes.
Definhado pela vertigem da dor.
Sedento à persuasão irresoluta do amor,
que traceja o obituário pelos instantes.

Camorra apática inculpável,
torna pedra o que fez-se puro,
com medo do definho vertiginoso,
que adorna as lápides de luto
dos que morreram de amor.

60. [ Seja Um Louco a Mais ]

Liberdade, fogo que é chama,
Ilumina meu caminho e minha cabana.
Minha vida, presente do destino,
Incerto e descontínuo, inexistente.
Não está escrito, não existe tinta,
Não está jurado, não existe confiança,
Não está combinado, não existe aliança,
Mas também existe, depende do ponto de vista.

Não está no céu, eu já procurei,
Não está no mar, eu não achei,
Não está na terra, aqui é só rei,
Não existe, senão a ilusão.

Ilusão, feita de promessas,
Desanimam cada segundo dos dias iguais,
Que eu vivo, um a um, sem condições,
Sem como crescer, sufocado.

Sigo cego na ignorância,
No jardim de infância,
No manicômio, completo doentio,
Onde me trancam achando que sou louco.

Louco por não querer o dinheiro
Sujo com o sangue dos miseráveis,
Eu não o aceito, não tem valor verdadeiro
Como o amor gratuito e alheio.

Venha a mim, me de a sua mão,
Se você agiria até tal altura,
Levante-se, saia do porão,
Entregue-se à minha loucura.

61. [ Sentido ]

Enfim, aqui estamos novamente,
Neste corredor infinito,
Deste raciocínio finito,
Tão confuso e retorcido.
Não chega a ser a agonia,
Nem a hora de ir.
Mas o que podemos dizer,
Se sabemos que um dia,
Tudo será para sempre?

Mas hoje não somos tão felizes.
O que fizeram com o nosso mundo?

Nossas pegadas por toda parte…
Estamos em busca de um sentido.

62. [ Sete Castelos ]

Não temos certeza de nada.
Não temos o tempo que passou.
Não temos controle de nada.
Não temos o vento que levou.
Quando uma noite
Passa depressa demais,
Não queremos ir embora,
Quero ficar um pouco mais.

A festa terminou,
Qual o caminho de casa?
Mas eu não quero ir embora,
Quero ficar um pouco mais.

Não temos certeza de nada.
Não temos o tempo que passou.
Não temos controle de nada.
Não temos o vento que levou.

Não tenho casa,
Não tenho tempo,
Não tenho controle,
Não tenho medo.

Eu acredito nos meus caminhos,
Eu acredito em mim…

Não temos certeza de nada.
Não temos o tempo que passou.
Não temos controle de nada.
Não temos o vento que levou.

63. [ Sete de Espadas ]

Hoje, procuro uma conclusão.
Apenas ainda estou vivo.
Mais um jovem soldado,
Que restou desta guerra imunda.
No vitral quebrado,
O sonho perdido.
Na pauta derretida,
A canção dissolvida.

Trago comigo as cinzas
Dos planos que eu fiz,
Pois sou vítima de um sofisma.
Sou um órfão da paz.

Trajo retalhos da matriz,
Sem saber como me refazer
Neste momento ausente
Solitário e distante.

O sistema plagiou a vida.
Percebi pelo olhar ofuscado
Deste grande articulador de ilusões.
Ardil devoto à traição.

E todos estão nesta curva novamente,
Procurando uma razão para essa gente
Que vive do lixo dessa gente
Que segura as correntes
Que nos trancam neste pesadelo
Mais uma vez.

64. [ Sonho Livre ]

Se o fragmento é sagrado
E se fixa em tão vão momento,
Tal ardor não é agrado
E nem contentamento.
Ah, me diga o que quer
Verei o que posso fazer,
Pois não tenho nada do que queria ter
Daquele sonho que eu teria
se eu não estivesse aqui.

Porque se não fosse assim,
Eu não pensaria no que dizer
Para te fazer entender
O que me incomoda tanto.

65. [ Tulipas ]

Fui para a guerra,
lá na fronteira da verdade.
De um lado, a fome,
e do outro, as promessas.
O dia estava frio,
nuvens escuras no céu.
No chão, estavam cinzas,
jaz a liberdade e,
jaz a paz, que ali esteve,
e ali, agora, sob o silêncio
que engana os ouvidos atentos
dos que estão presos à batalha,
o sol, barrento, sujando as palavras,
e o céu, manchado, incapaz de limpá-las.
Cartuchos vazios pelo chão,
o cheiro de pólvora pelo ar,
as lembranças na fogueira,
e corpos na água a boiar.
Eu, ferido, pelo chão,
vendo tudo perdendo a cor ao meu redor,
e do outro lado, os sorrisos,
feitos dos dentes das vítimas.
Na fogueira, ficou o gosto das boas lembranças,
que já não temperam mais os dias,
que agora, tenho que engolir sem mastigar,
pois os meus dentes,
estão no sorriso das promessas,
e a cor dos meus olhos,
entre as cinzas das lembranças,
naquela fogueira,
em que cozinharam o banquete,
para comemorar a vitória.
Agora a visão é punição,
que sem cor, agoniza,
querendo sentir novamente
aquele gosto dos dias
em que eu plantava tulipas,
naquele lugar, que hoje,
separa gestos e palavras.
A alegria esvaiu-se,
mas não me perdi,
ao menos dentro de mim,
ainda planto tulipas,
limpas e imunes à fogueira,
e continuo a colhe-las,
para dar a quem eu gosto,
cheirar quando tiver vontade,
ou até, quem sabe,
para lembrar do gosto
que tinham os dias
em que nasciam neste lugar,
que hoje, divide o mundo em dois.

66. [ Tudo é Mentira ]

Tava difícil lá em cima,
lá em cima do horizonte.
Tá complicada esta vida,
aqui, debaixo desta ponte.
Por onde os carros passam
e a fumaça suja os olhos,
não posso ver você passar,
o escuro é meu abrigo.

E lentamente passa o dia
sob a sombra dos varais,
e ele vai com a neblina
e amanhece nos jornais.

Por onde as letras falam
e as mentiras nos enganam,
não posso ver o amanhã
por entre as linhas embaralhadas.

Tudo é mentira, eu sei.

67. [ Temperando Aço ]

Veja a espada brilhar:
Vem de longe as cinzas.
Um novo horizonte se faz
Nas janelas abertas das casas
Que distraem um mesmo olhar.

Quando sonhava com um novo lugar para nós
Que cobrisse essa cicatriz
Que os monstros deixaram para nos machucar

Eu ficava feliz
Por pensar que faltava tão pouco
Para tudo acabar
E um aprender a ajudar o outro.

Rasgo as nuvens e as ondas
Num corte perfeito que desfaz
As amarras do corpo marcado
Que só pensa em pensar em pensar…

Aonde quer chegar?

Ainda brilha aquela estrela
Que meu nome, eu lhe dei

Quando sonhava com um novo lugar para nós
Que cobrisse essa cicatriz
Que os monstros deixaram para nos machucar

Eu ficava feliz
Por pensar que faltava tão pouco
Para tudo acabar
E um aprender a ajudar o outro.

 

Segunda Fase ( 2004-2008)

1. [ Flores Para Ampulheta Lunar ]

Andando pela cidade há muitos becos e visões
Eu só procuro o melhor caminho
Eu só procuro o melhor destino
Pra curar tudo aquilo que se faz tão frio
E ao mesmo tempo me protege de possíveis ilusões.
Procurando diversão, alguma coisa pra esquecer
Do que eu quero neste instante,
Do que eu penso a todo instante
Porque eu sei que não consigo esquecer
Do que eu quero tanto se não tenho algo pra me destrair.

Eu sei que nada termina sem antes se começar,
E também sei que tudo termina quando ja não há mais nada pra mudar
Por isso espero um novo dia sabendo que vai chegar…

Vão renascer as flores que morreram no jardim
Vou apreder a esperar até meu sonho resistir
Quero estar por perto pra ver o meu sorriso
Ilumiar o mundo, cicatrizar o abismo
Que surge em minha vida nas ultimas semanas
Cansei de estar sozinho com tantas esperaças,
Morrendo a cada dia, perdendo dias na lembrança,
Não quero ver o meu amor declarar guerra para a temperança.

2. [ As Sombras da Caixa ]

Trilho na mata fechada.
Olhos abertos na madrugada,
De repente, vistos em uma emboscada.
Flechas e Lanças por toda parte,
Cruzam meu caminho, minha odisséia.
Tornando arte em fuga da cilada.

Atravesso mares e províncias,
Florestas, desertos e colinas,
Tentando evitar o pior.

Estou apenas andando em nuvens…
Mas sei que Pandora não me ouvirá,
Pandora não me ouvirá…

O destino está mais próximo do fim.
Uma caixa esconde o mal que não existiu.

Hoje o mal se prolifera,
No coração do mundo.
No coração de um mundo deveras doente.
E o que podemos fazer da recordação sem a cura?
Em que caixa estará seu coração?

3. [ Gotas na Janela ]

As gotas que caem na janela
Neste dia vazio de uma semana qualquer da minha vida…
Serão apenas gotas numa janela, como pessoas num mundo?
Serão apenas gotas numa janela, como mundos num universo?
Serão apenas gotas numa janela?
Ou serão apenas idéias enigmáticas,
pelas quais me exponho em segredo?

4. [ A Luz e a Escuridão ]

Já conheci as sombras,
A escuridão e suas criaturas,
A dor da cruz e das torturas,
A falta de esperança, os estigmas.
Uma terra maldita
Suja de sangue e lágrimas,
Onde nuvens negras cobriam o céu e o sol.
Era noite ao meio-dia.

Os gritos de dor se alastravam,
A agonia se proliferava na doença,
A fome rasgava os estômagos,
A sede secava os olhos,
Que não se abriam mais.

Uma lágrima tocou o chão, e secou.

Um raio partiu as nuvens negras ao meio,
Dando origem à chuva,
Há tempos extinta.
 
Por uma fresta, transbordou luz,
Tão radiante e contagiante,
Que floria todo solo que tocava.

A chuva molhou todos,
E os olhos se abriram.

A vida se refez,
O mundo acendeu,
A terra se iluminou,
E o arco-íris coloriu
O sonho de um mundo novo.

5. [ Aurora da Eternidade ]

Singela embarcação,
Aquela que navega no vinagre desta ilusão,
Que na preamar recrudescente,
Preconiza cada gota de sua odisséia
Em busca do mundo esquecido,
Dos vinhedos e ágatas do paraíso
Guardados no fundo da memória.
Lembro-me de andar por entre os álamos,
De um velho jardim, enquanto via aflorar,
Do tudo e do nada, os lírios da nossa esperança,
Do amor escondido, da nossa piedade,
E o almíscar perfumava aquele momento,
Aqueles dias, e toda eternidade.

6. [ Mesmo Assim Estamos Bem ]

Não ouvi uma palavra que falaste
Naquela confusão
Ninguém sabia pra onde ia e nem porque,
E nem porque…
Suas armas e bandeiras carregavam
Um ódio sem explicação
O num olhar silencioso
Se escondia a fome e frio de um coração.

Tantas coisas que acontecem
Será que é porque eles não se conhecem?
Tanta gente que pagou por não ser igual.
Tanta gente que morreu por um ideal.

Faz de conta que nada aconteceu
Olha nos meus olhos
Me diz que se esqueceu
Que tudo foi só uma brincadeira
Que o ódio nunca foi e nem será uma bandeira.

7. [ Nossa Loucura ]

Nossa loucura não tem seguro,
Mas podemos ficar loucos num lugar seguro.
Minha loucura pode ter perda total com você,
Que amanhã pago com cara lavada,
Fazendo o que tenho que fazer.
Preciso fingir que não ouvi isso de você.
Por que morena dessa com fome,
se eu passo fome pra você comer?
Ou então eu te levo até o hospital,
Porque… falta de carinho deve ter cura…

8. [ Ser ou Não Ser, Eis a Questão... ]

Você pensa em ser?
Você não pensa em ser?
Você não pensa?
Pois é…
Tem gente que quer ser e não pode,
Tem gente que pode ser e não quer.
Você pode ser de pedra, resistir a tudo pela eternidade,
Você pode ser de areia, e ser soprado para o esquecimento,
Você pode ser de água, transformar a pedra em areia, e terra em lama,
Você pode ser de fogo, e esquentar um coração que se sente sozinho na calada de uma noite…

9. [ Moto-perpétuo ]

Máquina do nada,
Que gera nada do nada.
Sonhos que geram sonhos,
Energia que gera energia
No caos da antropofagia.
Giram as engrenagens
A partir da força do nada
E do nada se cria
A energia que mantém
A luz de um sonho acesa
A energia que traz
Do escuro a clareza
De uma idéia impossível,
A busca pela vitória
Da idéia em guerra
Com leis e teorias.
Máquina autosuficiente,
Idéia remanescente, esquecida
Porque nada se cria,
Tudo se transforma,
E esta é a razão de tudo.

10. [ Canivete ]

Ameaça!
Desespero,
Inconsequência!
Fuja de si!
Você não está seguro consigo mesmo.
Você não tem controle de si.
A solidão e as ruas escuras não fazem diferença.
Procure alguém mais confiável que você.
Talvez a morte seja mais confiável…
Mas precisa ter certeza do que pensa.
Sua mente perversa e insana te conduz a isso,
Você sabe o que fazer…
Só não sabe por quê fazer.
Exatamente, estás mergulhado na loucura.
Por que não larga estas drogas malditas
Que te dão apenas o prazer da ilusão?
Você não vê mais valor em viver,
Tudo ao seu redor se torna estúpido,
Inútil seria tentar conviver com os outros…
A lâmina desliza pela sua carne,
Não é visível dor,
Não é sentido o calor,
Nem o frio.
Seu mundo já é outro,
Não é mais possível entender o mundo lá fora,
Apenas se vive em função do de dentro.
A pele sangra,
O corpo perece,
Num canto do banheiro,
Sem ver seu reflexo no espelho,
Para esquecer o retrato perdido,
De uma alma sem retorno.
Os cortes graves,
Sem dores, são somente cortes graves,
A dor esta esquecida…
Retalhado no banheiro,
Se mutilando aos poucos,
Não sabe o que faz…
É uma criança brincando de morrer.
Mas a morte, adulta e ingrata,
Veio de paletó e gravata,
Levou sua vida embora
E deixou seu corpo estirado no chão.

11. [ A Queda de Roma ]

Pegue suas coisas, vá embora!
O castelo vai cair!
Pegue suas coisas, sem demora!
O mecanismo vai ruir!
Por que choraste, se não amaste?
Por que implora, se o pecado devora?
Por que não atende a voz que te chama?

Vigorava a mentira de um sonho antigo
Na sobra de exércitos, muros e portões.
Mas quando o sol brilhou em verdade
O diabo sorriu e a espada quebrou:
O lobo soprou e o império caiu.

12. [ Entre a Cruz e a Espada ]

Meu mundo está diferente
Daqui posso enxergar toda verdade
Daqui posso enxergar a mentira que comanda
O medo que devora as pessoas
Os dogmas que nos afastam de nós mesmos
As leis que nos dão direitos
E as leis que nos tiram os direitos dados
Leis que se anulam
Leis que prendem em nome da justiça
Mesmo ao prender a própria justiça
Logo, leis que prendem leis
Pessoas que prendem pessoas
Violência que gera violência
Guerra que gera guerra
Cruz que proteje a alma
não proteje o corpo
Cruzes que nomeiam naturezas
Cruzes que subornam a fé
Fé que compra a sorte
Fé que retarda a evolução
Medo que se confunde com fé
Fé que se confunde com medo
Crente que se confunde com descrente
Corpo que se confunde com espelho
Mentira que se confunde com verdade
Ódio que se confunde com amor
Indiferença que se confunde com saudade
Morte que se confunde com vida
Homem que se confunde com deus.

13. [ Sobras e Sombras ]

Ando por uma rua que me parece estranha:
A casa verde estava naquela esquina de ontem
Agora está sobre a casa amarela da outra quadra de hoje,
Na esquina agora há uma praça e jovens ali se reunem.
O enorme prédio que cobria toda a rua com sua sombra,
Dividiu-se em casas que ocupam o espaço de uma antiga praça.
Havia um posto de gasolina bem depois da farmácia,
Mas hoje a farmácia está sobre o posto de outro bairro.
A casa que estava aqui ontem,
Hoje está sobre a outra, ou abaixo da outra,
Pintada de outra cor, arranjada de outra forma,
Ou em outro bairro, ou em outra cidade.
Um terreno baldio se torna um prédio,
Um prédio se torna um terreno baldio.
O morro que se transforma em barracos,
Os barracos que se tornam morros.
No mundo atual nada permanece igual,
A cada dia vivemos em uma cidade diferente.
O que permanece é o nome e sua história,
E nossa vida se configura como as cidades,
Que cada dia se fazem novas sobre as sobras.

14. [ Fragmento Sem Nome 1 ]

Meus olhos vazios procuram por você…
Quem será você?
Você, essa pessoa que não conheço…
Ou esta que não percebo…
Ou a que não me percebe…
Meus olhos te procuram nas pessoas,
Meus lábios esperam os seus,
como as caravelas esperam o vento…
Será real ou surreal?
Será verdade ou ilusão?
Ou o destino foge dos meus olhos,
Ou ainda meus olhos fogem do destino…
Ou permanecem fechados,
cegos ao sonho real que cruza as ruas
que eu passo todos os dias…

15. [ Fragmento Sem Nome 2 ]

Andei pensando no porque das coisas…
Olhei e percebi que algumas coisas nunca mudarão a menos que deixe de existir…
Porque tudo para existir precisa do seu oposto..
A luz precisa da sombra pra existir,
A paz precisa da guerra,
Os revolucionários, da oposição,
A riqueza, da pobreza,
O prazer, da dor,
A alegria, da tristeza,
O homem, da mulher,
O amor, do ódio,
A morte, da vida,
O rancor, do perdão,
O orgulho, da humildade,
A inteligência, da ignorância,
O avançado, do primitivo,
O calor, do frio,
A realidade, da ficção…
As coisas são frutos umas das outras,
Nada existiria sem seu oposto,
Sempre há um oposto para tudo,
toda virtude tem seu vício,
todo amigo tem um inimigo…
Um tirano contra o governo é um revolucionário,
Um revolucionário no poder é um tirano.
O prazer indesejado é dor,
A dor desejada é prazer.
A realidade sem provas é ficção,
A ficção comprovada é realidade.
Para cada inimigo, uma arma.
Para cada amor, coragem.

16. [ Fragmento Sem Nome 3 ]

O amor é um pássaro raro
Que alguns tiveram o privilégio de encontrar em mata livre.
Que uns viram uma só vez em toda uma vida.
Que uns caçam noite e dia.
Que outros procuram arduamente
Entre as flores do jardim,
Entre as estrelas, no luar,
Entre as folhas do caderno,
Entre os contos de um livro…
Os que o trancaram numa gaiola,
Pouco prazer tiveram em ouví-lo cantar.
Há também quem nunca o viu…
Há quem o viu de perto, e de longe…
Há quem pensou ter visto uma vez,
Mas que pensou poder ser ilusão.
Quem ainda espera encontra-lo
Num dia qualquer, voando e cantando
A melodia vigorosa que acalma o coração:
Que é capaz de tornar flor,
O que a morte tornou poeira.
Que é capaz de tornar amor,
O que o tempo tornou esperança.

17. [ Fragmento Sem Nome 4 ]

Penso sobre a gente que pensa,
Sobre as sombras dos pensamentos.
Pensamentos que pensam cada um por si,
Pensamentos que se defrontam de repente,
Como ferro entre os dentes,
Ferrugem nos olhos doentes
Vendados para não enchergar
Que a caixa se abriu
Como a boca faminta,
Que na tua comida cuspiu.
Ouvidos mortos,
Com tímpanos rasgados
Para não ouvir o grito
Que anuncia onde a guerra começa
Ou termina.

18. [ Fragmento Sem Nome 5 ]

Ah, que vida idiota…
O vento traz o vazio
Pra dentro de casa
O mundo traz o vazio
Pra dentro do peito
Num olhar desfeito
Sem rastros de batalha
Afiado como navalha
Apontado para um sentimento suspeito
Que agoniza no leito
A espera do milagre da vida
De uma vida já comprometida
Entre os valores enferrujados de uma máquina ruída
Que fabrica corrupção, concorrência sem coerência,
Gente esquecida como carne moída.

19. [ Fragmento Sem Nome 6 ]

No caminho, o espinho
Na espada, a chegada.
Nos portões, os porões.
Nas batalhas, as medalhas.
No desejo, o beijo.
Na busca, a descoberta.
Na rima, a esgrima.
No telhado, céu retalhado.
Nas perguntas, as catapultas.
Nas respostas, as portas.
No espelho, a dúvida.
Quem será que me olha
por tras deste vidro?

20. [ Fragmento Sem Nome 7 ]

O mundo é repleto de verdades que só eu compreendo,
talvez porque sejam minhas verdades,
ou talvez porque não sejam de ninguém.
Os tesouros que nunca pude trazer dos sonhos
para o mundo real, são milhares, que me pertencem
mas que não me tornam mais rico…
Apenas mais certo da verdade que me guia a cada dia,
da mentira que tenta governar o mundo,
mas não me governa porque neste mometo sei
a riquesa que este tesouro surreal me dá…

21. [ Fragmento Sem Nome 8 ]

O homem que nasceu no continente nunca pensou que houvesse uma ilha.
O homem que nasceu na ilha nunca pensou que houvesse um continente.
O homem que nasceu no continente chamou o céu de azul.
O homem que nasceu na ilha chamou o céu de amarelo.
Embora o céu fosse o mesmo, haveriam de parecer diferentes.
Embora os olhos fossem iguais, haveriam de enxergar diferente.
O homem que nasceu no continente descobriu que havia uma ilha.
O homem que nasceu na ilha descobriu que havia um continente.
Os dois se comunicaram e se surpreenderam um com o outro,
mas o homem que nasceu no continente chamava o céu de azul
e o homem que nasceu na ilha chamava o céu de amarelo.
O homem do continente tentou convencer o homem da ilha de que o céu era azul,
mas o homem da ilha não concordou e tentou convencer o homem do continente de que era amarelo.
O homem do continente desafiou o homem da ilha.
O homem da ilha desafiou o homem do continente.
Começou uma guerra entre os homens do céu azul e os homens do céu amarelo.
Muito sangue foi derramado na ilha, muito sangue foi derramado no continente.
De repente, apareceu o homem que nasceu na península.
O homem do continente tentou convencê-lo de que o céu era azul,
E o homem da ilha tentou convencê-lo de que o céu era amarelo,
mas o homem da península não concordava com nenhuma delas.
Via um céu que não era nem azul, nem amarelo. Disse que era vermelho.
Começou uma guerra entre homens do céu azul, do céu amarelo, e do vermelho.
Novamente sangue no continente, novamente sangue na ilha, e agora, sangue na península.
Um dos homens do continente não sabia se o céu era azul ou amarelo e chamou de verde.
Um dos homens da península não sabia se o céu era vermelho ou azul e chamou de roxo.
Um dos homens da ilha não sabia se o céu era amarelo ou vermelho e chamou de laranja.
Agora haviam seis formas de ver o céu com os mesmos olhos.
Como se o céu ja não bastasse, havia o céu azul, amarelo, vermelho, verde, roxo e laranja.
Morriam pelo seu céu, como se morressem pela vida.
A guerra tingia os continentes, as ilhas e as penínsulas de sangue.
As guerras e as indústrias espalhavam sua poeira cinza pelo céu.
E seis soldados esquecidos na morte da batalha olhavam para o céu pela última vez.
“Lutei, sangrei, chorei, gritei, matei, morri, e o céu já não se parece com nada.”

22. [ Cem Anos de Chuva na Capela ]

Quero um poema:
Pode ser sem rima,
Pode ser por acidente,
Mas o poeta está doente
Há meses, versificado…
No fundo da cama.
Há eternidades, estrofado…
No mesmo drama.

O mundo está lá fora,
O poeta está aqui dentro.
A chuva não quer ir embora,
E o vento se dissolve em lamento.

Tem um mendigo no telhado,
Chove moedas de um centavo.
A noite é uma bananeira,
O Diabo se banha das estrelas.

─  Mais um conhaque, por favor!
Só mais um e vou embora,
Pois um cachorro dorme na cabeça daquele senhor,
E o garçom plantou uma cenoura no relógio.

São quatro horas da madrugada,
São quatro sombras no chuveiro do céu.
Moedas descem pelo bueiro,
Marte esconde a Lua como um véu.

Nunca estive tão lúcido:
Essas moedas não valem nada!
Mas a calçada é de ouro,
E um Deus carrinheiro dorme ali.

Pisam na cama dele,
Mas ele não reclama.
Essa noite é das mais longas,
Ou Marte cobriu, O Sol também.

Passa a nuvem de notas de Cem.
A esperança toma banho na torneira.
Não sei porque espero a noite inteira,
Para ouvir as garrafas cantarem.

As escadas cobertas
Por um tapete de sangue
Tragam-me para mim mesmo.
Invento uma fechadura no teto:
─  O sono é uma pedra sanitária.

23. [ O Centro da Cidade ]

Pernas queimadas do sol,
Pernas molhadas da chuva.
Carros, caminhões e motos no farol,
Sacolas, sapatos e pernas na rua.
Mulheres de centro, traficantes de si mesmas,
No relento de um abrigo de almas em carne viva.
Galhos desatinados vasando pelas frestas do abandono,
Engolidos pela mecânica viciosa do dia-a-dia urbano.

O mecanismo séquio e incessante da sociedade comercial
Esconde o fracasso na sombra de sua tecnologia.
Pernas cegas vem e vão não sei de onde,
Ignorando a hostil respiração das máquinas.

Os sinos da catedral gritam sete horas da noite.
E toda aquela gente transpirando como engrenagens,
Tomada pelo febril impulso de vontar pra casa,
Desaparece como um suspiro no silêncio da noite,
Deixando no ar solitário de uma multidão invisível,
O cheiro secreto de uma cidade vazia.

24. [ Prima-vera ] postada no blog

25. [ Um Olhar ]

Não entendo como pode ser possível olhar e não ver,
Nesses dias de verão tudo anda mudado…
O grande mar dos significados que sempre tive o prazer de mergulhar e explorar,
Anda um tanto quanto solitário.
A superfície, ultimamente parece mais interessante para todos.
Um olhar pode dizer tantas coisas hoje em dia,
E mesmo assim não significar nada.
Os olhares tocam a superfície das coisas e retornam ao local de origem.
O significado de alguma palavra, são outras dez palavras, cada uma significando outras dez palavras.
Um olhar pode se perder no infinito,
Também pode se perder em outro olhar.
O medo de encarar a nudez interior das coisas,
É o abismo que nos separa.
Mas a nudez exterior das coisas, das pessoas, já se banalizou.
Me assusta que o amor possa sofrer deste mesmo mal.
Que um beijo apenas toque a superficie…
Que um beijo não seja mais capaz de alcançar o coração.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.