[ o homem e o passarinho ]

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Passarinho – Matheus Martini

Já chovia por muito tempo. Uma camada espessa de neblina deslizava lentamente sobre as montanhas densamente arborizadas, onde algumas árvores floridas, de tom amarelo e violeta salpicavam a paisagem. A névoa revelava a profundidade e a distância entre estas montanhas, acomodando-se no espaço vazio elas. Estava debruçado sobre o guarda-corpo de madeira rusticamente construído e pareceu num instante lhe atingir um profundo estranhamento pelo fato de ser humano ao ser tocado por uma brisa úmida no rosto que era parte da paisagem que observava. “Estou, de fato, sentindo esta brisa úmida como uma forma diferente e complementar da mesma paisagem que vejo”. Pareceu curioso como estas informações tão distantes e diferentes entre si poderiam se complementar e conduzir a uma percepção tão complexa da simples existência e interdependência dos elementos daquela paisagem.

Naquele momento se aproximou um passarinho. Este se mergulhou em uma pequena poça d’água, e virava-se em gestos rápidos de um lado para o outro a fim de espalhar a água por todas as suas penas e plumagens. E como lhe parecia muito mais familiar a figura do passarinho que a sua própria! Era estranho o fato de ser humano, enquanto o passarinho aparentava representar seu próprio ser, mas projetado para fora, como para que se pudesse fazer perceptível aos seus próprios sentidos e ao seu pensamento.

O passarinho tinha sua cabeça dividida entre o branco e o preto, em listras que surgiam de trás do seu bico escuro em direção a um colarinho laranja e estreito que pendia em seu pescoço. A partir deste ponto as penas das asas e do corpo tinham uma tonalidade alaranjada mais clara, como se o branco que se iniciava na cabeça tivesse sido afetado pelo destaque da tonalidade laranja do seu colarinho, mantendo ainda sobre as asas o rajado de listras pretas. Sua cauda era composta de penas afiadas e escuras que pareciam equilibrar o peso de seu corpo sobre os pequenos pezinhos, dispostos na metade da distância entre a ponta do bico e a da cauda. Seus pequenos olhos escuros o olharam com curiosidade por um instante e rapidamente o passarinho alçou voo. “Como pode este passarinho ser assim, tão livre? Partiu para o céu de imediato conforme desejou e cuidadosamente escolheu o galho mais adequado para pousar.”

“O que é a liberdade, afinal? Não entendo o porquê, mas as asas deste passarinho com o qual tanto me identifico agora parecem ter carregado consigo este significado para longe de mim. Permaneço aqui com uma coleção de sensibilidades humanas que subitamente me pareceram tão fantásticas e estranhas. E no lugar das asas tenho estas mãos e estes pés que não podem nunca deixar de respeitar a vontade do solo sobre o qual caminho. E o que faço com as mãos? Com elas posso tocar tudo que estiver ao seu alcance, mas novamente o alcance das mãos se limita ao alcance que aos pés foi limitado pelos obstáculos da terra. A única parte de mim que atinge aqueles galhos floridos distantes sobre a montanha é o meu olhar. Não posso daqui tocá-los com meus dedos para sentir quão ásperos são e quão macias são suas flores, que daqui mal posso definir sua forma. Vejo apenas manchas amareladas e violetas solitárias na predominância de um verde profundo. Não consigo sequer imaginar daqui, que cheiro elas podem ter. Poderia chegar até lá, mas me custaria muito tempo caminhar até lá, e haveria no caminho muitos obstáculos da terra: buracos, galhos, raízes, plantas, espinhos, aclives e lama. Ao passarinho é permitido abreviar todas as distâncias que meu olhar pode apreender. Talvez seja esta a liberdade cujo significado ele acaba de tirar de mim voando para longe antes mesmo que eu pudesse imaginar onde iria parar.“

Distraído, não notou que o passarinho havia retornado a outra poça d’água próxima à anterior e ali se banhava, enquanto o olhava com a mesma curiosidade de antes. Perguntou então, como se tentasse imitar com um assovio o som que fazem os passarinhos, e como se esta arte fosse capaz de ser aprendida:

– Como pode ser tão livre? – numa tentativa de sondar se a pergunta afetaria o passarinho de alguma forma.

– Livre? O que quer dizer com “ser livre”? – respondeu para sua surpresa, o passarinho.

– Então foi capaz de me entender! Veja, vou tentar explicar: você pode alcançar tudo o que meus olhos podem apenas mirar, quase na mesma velocidade com que direciono sobre algo o meu olhar. E sequer precisa atravessar neste feito todos os obstáculos que existem na terra entre você e o destino que deseja. Isso que quis dizer com “ser livre”: não depende das limitações que a terra oferece.

– Mas você parece ignorar que ambos temos dificuldades com isso, que chama de “ser livre”. De maneiras diferentes, mas com consequências equivalentes para a vida. Quando se refere aos obstáculos da terra, não percebe que há também no ar obstáculos? – perguntou o passarinho, enquanto pulou para outra poça d’água e continuava a se banhar.

– Mas no ar parecem ser muito menos concretos que os da terra. – disse o homem.

– Enquanto daí apenas observa com atenção o meu voo, lá preciso estar atento a muitos obstáculos. O vento, por exemplo, pode acabar me levando para o lado oposto ao que desejo se não souber como lidar com ele, e seu humor pode variar muitas vezes durante um mesmo dia. Sua direção pode mudar subitamente. Também aquela neblina é conduzida pela vontade do vento, vê? E ela dificulta a observação, e assim preciso tomar cuidado com a direção que assumo diante dela e do vento ao mesmo tempo. Devo a ele meu respeito, da mesma forma que deve seu respeito à terra.

– Não havia pensado desse modo antes. Mas com asas como as suas, penso que poderia ser diferente.

– Diz isso porque vê nas minhas asas uma forma de se livrar da necessidade de respeitar a terra. Mas então teria de respeitar o vento e, além disso, com este corpo pesado e com tantos membros, dificilmente seria capaz de flutuar sobre o vento. Não parece que podemos ser dotados de todas essas facilidades ao mesmo tempo, e além do mais, acho que isso que chamamos de facilidades são apenas nossas limitações, e enquanto se pensa ter uma facilidade, está ao mesmo limitado a ela.

– Penso que está com a razão. Do que me disse, percebo mais algo que nos diferencia: tenho estas mãos, e elas também são uma facilidade deste tipo. Com elas, posso realizar diversas tarefas, criar ferramentas que amplifiquem suas facilidades habituais e, além disso, tocar e sentir a textura e a temperatura de todas as coisas, o que também pode vir a ser útil.

– Sim. Por exemplo, quando preciso construir um ninho, tenho de encontrar um local favorável sobre um galho, estrategicamente protegido do vento e de outras ameaças, e trazer um a um os gravetos com meu bico e trançá-los com muita dificuldade. Uma mão como a sua facilitaria muito este trabalho, mas com elas talvez me custasse voar. Trata-se então de fazer tudo quanto for possível com as facilidades e limitações que possuímos.

– Mas, ainda assim acho vantajoso ter estas asas em vez de mãos. Pode ir a qualquer momento para onde desejar. Sabendo respeitar o vento e a neblina não parece haver outros limites.

– Não é bem assim: tenho, por este mesmo motivo, que realizar tarefas que exigem muito da minha capacidade de voar. Por conta desta característica temos de nos manter sempre em movimento. Nunca se sabe o quão distante se poderá encontrar uma companheira para gerar novos filhotes. E, além disso, dependemos de fontes de alimentos que podem se esgotar em certas regiões por algum período do ano, e assim temos de voar por longas distâncias até que possamos encontrar novas fontes de alimento, água e árvores altas e densas o suficiente onde se possa construir um ninho seguro e pouco exposto. E também podemos acabar perdidos em alguma cidade, onde pode ser muito difícil se orientar.

– E por que esta dificuldade de se orientar na cidade? – perguntou o homem, que não viu nisso muito sentido, já que muitos homens costumam se dirigir às cidades em busca de orientação.

– Porque nos orientamos pelas estrelas quando é noite, e nos posicionamos na direção indicada por estes sinais para logo cedo, antes que esteja claro, possamos partir e continuar nossa viagem. É na verdade breve em certa medida, este momento em que nos encontramos, pois mais tarde vou me orientar para amanhã partir. Na cidade, porém, é muito difícil ver com clareza a orientação que as estrelas nos dão. Camadas de nuvens e poeira que nos são estranhas refletem a luz própria e excessiva da cidade, deixando poucas chances de entender os sinais que não são da própria cidade. Ela parece cercada por uma redoma de poeira que só pode servir para ocultar esse tipo de orientação.

– Mas como podem se orientar pelas estrelas, e por que fazem assim? – indagou o homem, muito curioso.

– Isso é uma história antiga que comecei a escutar quando ainda não podia voar, e me foi inicialmente transmitida pelos meus antepassados e outros pássaros que nos acompanhavam, que juntos sempre formavam um grupo para dividirem a tarefa de interpretar os sinais das estrelas e revezar a condução do grupo (para se cansarem menos durante a viagem). Vou tentar lembrar ela desde o início. – respondeu o passarinho, saltando de perto da poça d’água e voando para um guarda-corpo de madeira rústica como o que o homem se apoiava. – Eles me contaram que, depois da morte, todos os pássaros que foram capazes de entender bem sua liberdade sem desrespeitar a vontade do vento, liberavam sua alma, e a alma também possuía asas. Esta apanhava um graveto que neste mesmo ato se consumia em chamas, que o próprio vento alimentava de forma que custasse muito até que as chamas o consumissem por inteiro. De posse destes gravetos, suas almas seguiam para a camada mais distante do céu, onde nenhum pássaro vivo jamais pôde chegar e de lá sinalizavam para os vivos as lições e indicações que acumularam durante a vida. E tamanha era a quantidade de pássaros que se acumularam sobre esta camada, que durante a noite cobriam todo o céu, sobre nossas cabeças. Devido a enorme distância pode ser um tanto difícil perceber, se não ficar atento e tranquilo durante a noite, que estas luzes estão em constante movimento e deste sinal muitos tiram a lição de que a liberdade é o que nos mantém em constante movimento. Estas luzes reservam diferentes intensidades de brilho, o que permite identificar na percepção da sua totalidade outra série de sinais. Alguns interpretam que o próprio fato do céu estar repleto desse tipo de luz quer dizer que há diversas maneiras de realizar a própria liberdade, senão haveria apenas uma luz desse tipo a ser seguida. E dizem também que apesar da distinção entre as luzes na tonalidade e intensidade do seu brilho, todas seguem em uma mesma direção. E isso qualquer um de nós pode constatar durante a noite. Sobre isso, ouvi de outro pássaro durante uma longa viagem para o sul enquanto mudava a estação, que serve para lembrar que todos, para sermos livres à nossa maneira, devemos respeitar a vontade do vento. Até mesmo a água respeita a vontade do vento, e sempre que voamos lembramo-nos disso. Por ele é levada na forma de nuvens de um lugar ao outro. Na terra, porém, ela é levada pela vontade da terra, seguindo dos pontos mais altos para os mais baixos, onde ela se acumula se também a terra permitir, ou então ela retoma a água para suas entranhas e a faz surgir em outro lugar. Não poderia ser diferente.

– Sempre que é possível olho para estas luzes distantes no céu, mas nunca havia imaginado tudo isso que acaba de me contar. – disse o homem, introspectivo.

– Mesmo entre nós passarinhos, imaginamos com frequência diferentes lições a partir dos mesmos sinais – revelou o passarinho-, mas de alguma forma elas sempre se complementam, como as luzes que circulam sobre o céu durante a noite.

– Alguns homens também acreditam que essas “luzes”, que chamamos de estrelas, formam desenhos no céu, e que a partir da compreensão do movimento destes desenhos pelo céu realizam avaliações sobre a natureza e até de seu próprio destino. – disse o homem, revelando sua introspecção.

– E como se orientam na cidade, com tantas luzes? – perguntou o passarinho, curioso.

– Na verdade, na cidade as estrelas parecem ter menor importância. Jogam luzes uns sobre os outros para se identificarem durante a noite, e trocam poucas palavras. Sonham com a liberdade, como eu, mas fazem sempre o mesmo enquanto estão acordados. Muitos percorrem o mesmo caminho todos os dias, como se passassem pela vida construindo um ninho durante o dia, que se desfaz durante a noite. Sei que isso pode parecer não ter muito sentido, mas é como parece ser. Essa liberdade com que sonham na cidade parece sempre distante, e um motivo de disputa. De forma que acreditam por toda vida estar ao seu encontro, como se esta fosse uma só para todos. A cidade me fez pensar que conseguir um par de asas seria a maneira mais fundamental de liberdade, porque aparentemente permitiria se livrar de toda a responsabilidade que é exigida no percurso sobre a terra, além de abrir o campo de visão para tudo que se poderia alcançar, a partir do alto. Mas depois desta nossa conversa, entendendo o valor que a asa tem para a tua liberdade e me convenci de que não devo desejar ter asas como as suas. Se você, que enfrenta longas distâncias, o faz com suas pequenas asas, penso que devo fazê-lo com as minhas próprias mãos e pés, da maneira que me for possível. Assim, sem prescindir de algo fora de meu alcance para construir minha própria liberdade, sinto que estou no caminho para uma liberdade ainda maior. – disse ao passarinho.

A chuva apertara e de maneira repentina a neblina que repousava entre as montanhas passou lentamente bem diante de seus olhos. Seus olhos o haviam transportado até aquele ponto distante na paisagem. Ecoava ao seu redor o som das gotas de chuva que tocavam o solo e lonas de barracas de acampamento. Sentia como se tivesse desperto, mas parecia estar diante de uma obra de sua imaginação. Escutou o canto dos passarinhos, mas não era mais capaz de encontrar nele algo que pudesse compreender. Os passarinhos voavam para árvores próximas em busca de abrigo. Sentiu em sua pele uma textura estranha. Não podia esticar os braços para tocá-la. Haviam adquirido um aspecto leve e largo que embrulhava seu corpo. Sentiu-se por um instante desequilibrado sobre um pequeno galho, e distante do solo. Esta transformação era espantosa. Sua boca estava rígida e se projetava para frente como uma pinça. Aparentemente nunca havia sido de outra maneira. Piscou os olhos algumas vezes numa tentativa de reverter sua transformação. De alguma maneira sabia que era hora de partir para uma nova viagem. As estrelas no céu, como uma carta náutica, destacavam desenhos que permitiam diversas interpretações, e era preciso decidir que rota traçar e assumir total responsabilidade sobre esta decisão. Havia outros passarinhos despertando e logo se comporia uma formação de voo para outro dia de sua viagem de migração. Preparava suas asas junto aos outros. O canto do conjunto anunciava que a formação logo se estabeleceria.

Em outras noites lhe ocorreu esse tipo de sonho em que se é um homem. Mas nunca antes havia estranhado tão profundamente o fato de ser um homem como dessa vez, e isso que mais lhe perturbava. Quando esse tipo de sonho acontecia com mais frequência se plantava em sua cabeça uma confusão. Era difícil afirmar se era um pássaro que sonhava ser um homem, ou se era um homem que sonhava ser um pássaro.


[ porque sou egoísta ]

Pichação no Museu de Belas Artes de Santiago do Chile - 2013

Pichação no Museu de Belas Artes de Santiago do Chile – 2013

Por que fazer uma gentileza? Por que fazer o bem ou um favor a uma pessoa anônima que encontro ao longo do meu caminho cotidianamente? Por que dar passagem ao outro motorista que aguarda para fazer uma conversão (enquanto segura os que vem atrás)? Por que chamar um idoso para se sentar em um acento vago no metrô? Por que aguardar uma lixeira para jogar o lixo que tenho em mãos? Por que respeitar os limites de velocidade e a sinalização de trânsito, estando no carro ou na bicicleta?

Por que assim sei que estou dando o meu melhor em cada instante. Porque acredito que é o melhor a ser feito. Não me venha dizer que busco com isso servir de exemplo, não! Desprezo o exemplo! Após fazer qualquer uma destas coisas sinto que fiz apenas o básico, o mínimo. Não há vantagem alguma nisso. Sei apenas que fiz o meu melhor, e mesmo assim é o básico. Não quero ser exemplo para ninguém, nem servir de pretexto para quem tem preguiça de fazê-lo julgar que pode deixar de fazê-lo porque já o faço. Afastem-se de mim estes covardes! Está firme em mim a idéia de que devo fazer estas coisas porque é o melhor que posso fazer, e isso não é nada demais, é apenas o básico! Sou egoísta: faço o bem aos outros apenas por mim! Nunca para os que testemunham, se há testemunhas! Se ajudo alguém vou embora antes que me agradeça, não tenho tempo a perder com esta pessoa! Já fiz o que precisava ser feito, agora tenho mais o que fazer do que ouvir agradecimentos!

Que os fracos aguardem o exemplo alheio, que aguardem a melhor ocasião para serem melhores, que aguardem a vinda de seus heróis! Não tenho tempo para aguardar nesta vida, não vou esperar que o façam! Não me obrigue a esperar, por favor! Não ajudo os outros por você, ajudo os outros por mim! Faça você mesmo a tua parte e não seja preguiçoso! Não espere que eu ajude em seu nome, nunca! Não quero heróis, não quero mártires! Que a fraqueza esteja longe de mim, e que este clamor pelo herói não perturbe o meu sono: me deixe dormir e se quiser clamar, clame em silêncio! Perdi algum tempo escrevendo isto porque isso pode servir a quem precisa desta reflexão. Se te serve, sirva-se dela e não espere mais nada de mim! Não tenho mais tempo a perder agora, ponto.

 

Matheus Martini

 

“Infeliz a nação que precisa de heróis.”

 

Bertold Brecht


[ congestiolamento ]

Foto: Matheus Martini - 2010

Foto: Matheus Martini – 2010

Rodas disputam, buzinas discutem, distâncias discretas,
Capôs esquentam, faróis esperam, vidros escondem expressões secretas,
Motores consomem, semáforos contém, volantes competem com quem?
A cidade cerca avenidas ocultas sob tantos carros e não vejo ninguém.

Matheus Martini
(São Paulo, 18/10/2013)


[ a cápsula da vida ]

It's a Shame about her Hand - Josh Jacobs (photographer)

           Somos humanos; pensamos e sentimos. Acreditamos porque queremos, se acreditar significa, antes de tudo, querer. E se acreditar é crer, dar crédito; o “crédito” que damos é nossa confiança, nossa vontade, nosso querer. Acreditar no que não se sabe ou no que não se sente só pode ser uma negação de nossas singulares condições humanas. Se algum “Deus” em algum momento nos tivesse dado a capacidade de “querer”, porque deveríamos retornar todo nosso querer a ele? Seria deus, Vaidoso? Seria o viver uma eterna redundância? Como Narciso se descobriu nas águas, teria Deus se descoberto no homem?
            E como poderíamos, com todo carinho, paixão e amor dedicar adoração a este “Deus” – que não conhecemos ou que não se revela, – enquanto sobra tanto espaço para detestar, repudiar ou se afastar dos homens e mulheres que nos são tão próximos e tão conhecíveis? Por que é dedicada tanta atenção e tanto esforço ao além, e tão pouco – senão nada – ao refinamento da percepção da realidade que nos concede diariamente a possibilidade de existir?
            Nietzsche diz que Deus está morto porque todos nós o matamos. Pude captar um dos sentidos deste pensamento no exemplo dos medicamentos, em que o homem não concede mais a “Deus” a confiança da cura, mas às cápsulas que contém substâncias invisíveis, nas quais dedicamos uma igual confiança de cura. Confia-se que na confecção daquela pequena cápsula foi empregado o conhecimento sobre o combate de bactérias invisíveis que causam determinados sintomas e prejuízos ao nosso organismo.
            Talvez o ponto que mereça mais atenção nem seja simplesmente o da confiança, mas o ponto em que há falta de contato direto e apurado com ambos, Deus ou bactérias invisíveis, e ainda assim se confia sem possuir meios de confirmar a completa eficácia de quaisquer métodos. É claro que a diferença básica entre “Deus” e bactérias, neste caso específico, é que as bactérias são visíveis quando constatadas através de instrumentos de laboratório enquanto Deus é encontrado na imaginação e nas palavras de religiosos, o que se faz muito mais subjetivo; mas isso não vem ao caso agora. O que a idéia pretende é que esse fenômeno todo parece indicar que um espaço que “Deus” ocupava na fé dos homens, agora é ocupado pela ciência.
            Pelo fato da ciência ser baseada em pesquisas e experiências reais, até parece que o homem do futuro deveria estar muito mais tranqüilo por entender e encontrar a cura para os microorganismos que ameaçam há muito tempo a sua saúde, mas de fato nada muda. O homem ainda estará fadado ao mesmo destino. Poderá adiar seu destino desta vez, ou outras vezes mais, mas na persistência dos sintomas poderá encontrar seu destino, ou talvez em algum instante inesperado, acidental. A busca que persiste é antiga, e pretende a cura para este destino tão temido. A “cápsula” que cura a morte.
            É neste ponto que entendo que as crenças permanecem mais firmes e confortáveis, porque elucidam sobre o que há para além desta experiência única e derradeira. Porque quando ela leva alguém, para os que ficam nada é esclarecido; a experiência de morte é reservada apenas para quem se vai. Para os que ficam, são deixadas recordações daquilo que foi e fez.
            O maior incômodo das religiões é o fato de se fixarem com mais firmeza nesta delicada curiosidade sobre o depois – assim como a um passado distante e enevoado, – dirigindo atenções e esforços para um além, enquanto deixa o presente abandonado e passivo a estes esforços e atenções. Se não podemos ter na lembrança uma vida anterior a esta, e tampouco a consciência plena de um além bem definido, como tudo isso poderia ter importância maior que o agora? No conformismo e comodismo que o pensamento no além oferece está uma perda de importância deste instante supremo que é a vida!
            Por que não nos permitimos pensar sobre qualquer coisa sem medo? Medo do que? Por que não dedicamos toda essa energia empregada no além para renovar sempre o nosso próprio modo de vida, que de fato é real, diário? Por que o além, e não o agora? Por que não nos permitimos experimentar outras formas de viver? Podemos lançar mão de toda evolução humana, que hoje se mostra mais tecnológica que humana, para evoluir de fato, o ser humano. Ou seja, para evoluir a condição humana em si; essa ordenação caótica e desigual instalada no mundo.
            Por que achamos que outra forma de vida seria impossível se não tentamos? Achamos que esta forma atual é a melhor que o homem desenvolveu até hoje? Por isso não tentamos? Quando nos ocorre algo neste modo de vida que nos desagrada profundamente, o que fazemos é nos esconder em crenças ou cultos do além? É assim que fugimos quando somos solicitados todos os dias a continuar vivendo? Passamos pela vida assim, como quem viaja em um trem olhando para o nada para não encarar ninguém, ou para não se perceber encarado?
            O único sentido que eu encontro quando penso em “Deus” é uma constante evolução, exatamente o que as religiões – com suas idéias absolutas enquanto não questionadas e o medo de pensar o “diferente” disseminado – estanca, condena e impede. Sem dúvida, nossa evolução espiritual está para além de definições, dogmas, temores e estagnação. Para além de idéias que se fecham em si mesmas como idéias estéreis. Idéias que morrem no corpo do pai, no útero da mãe, idéias abortivas. Que medíocre é a vida quando não se questiona, quando não se transforma, quando não é encarada como vida!

Matheus Martini


[ pegadas na areia ]

            Chego à praia sozinho em um dia nublado, e ao alcançar com o olhar o cenário de minha infância e de grande parte da minha vida, sou tomado por uma forte emoção. Uma emoção que como a força da ressaca rompe as muralhas do meu corpo e que voa com a garça que vejo flutuar sobre o mar. Qualquer criança que vejo com os pais na beira do mar rasga um sorriso em meu rosto, de onde vertem lágrimas que se misturam ao mar. As crianças brincam e correm na direção do mar: que descoberta que é a vida! Penso sobre a vida, que eventual é a vida. Se há um destino comum para todos os homens e mulheres, é a morte.
A morte se apresenta tão certa e impossível de ser contrariada. E contra isso a vida, quão carente de mim ela é, talvez não seja madura e decidida como a morte. Abriu meus olhos de criança pela primeira vez, como outra criança me chamando para brincar, me chamando para conhecer suas novidades. Estes somos nós, humanos, destinados a esta liberdade que desprezamos, liberdade inevitável que se não é compreendida durante a vida, se revela no fim da vida, como libertação da própria vida, como libertação até mesmo desses meus pensamentos.
Escrevi na areia molhada. “DEMASIADO HUMANO”. Ficam ali palavras, e caminho para o lado oposto de olhos fechados pela imensidão da praia. Tudo é diferente com os olhos fechados; o som do mar parece mais forte, me diz de estou andando em linha reta, molha os meus pés e me ensina os seus limites, me transfere o seu movimento. A terra que caminho se molda aos meus passos, sinto como se com cada passo eu pudesse fazer a terra inteira girar. Retorno pelo mesmo caminho e a maré sobe; o mar apagou o que escrevi na areia.
Talvez seja isso a vida, deixamos as pegadas na areia, escrevemos nossa vida na beira do mar, enquanto a maré sobe, e quem passou por ali absorveu da sua maneira o que escrevi, antes que a maré viesse recolher. Pouso um olhar sobre o mar sabendo que no final de meu turno poderei estar ali, diluído nas águas que algum dia eu dirigi olhar. Mas a morte só se revela para quem morre, não devo me precipitar sobre o tempo que virá após este evento derradeiro enquanto ainda vivo, enquanto o único tempo que sou capaz de perceber é este que atravessa minhas palavras.
Quando chegar meu momento, seguirei com a inocência da criança que corre para dentro do mar, porque da mesma forma que a criança é nova para a vida, serei também novo para a morte. Hoje penso que nada pode ser possuído, por princípio, já que nem da vida temos posse, porque não podemos guardá-la em “algum recipiente”. Deverei por fim, devolver para a terra os elementos dela que se reuniram em mim, e que por um curto espaço de tempo, persistiram em me fazer existir.

Matheus Martini


[ a doença da razão ]

“O sono da razão produz monstros” – Ilustração de Francisco Goya

           Em cada dia, feio ou belo de um céu azul radiante ou acinzentado da vida em sociedade, o pouco que cada um não faz se aglutina pelos cantos, feito uma horrível secreção e pouco a pouco vão se formando poças gosmentas, até que de toda essa imundice emergem monstros terríveis. O mais estranho, porém, nota-se no hábito dos tipos que habitam as instalações destes grandes sistemas de geração de valores. Uma abominável ironia é o seu modo; aquele monstro e fantasma que vaga por todas as ruas não lhe causa nenhum desespero, espanto ou novidade, mas pode, em apenas um olhar desprotegido refletir o seu vazio aterrador ou revelar alguma expressão há muito evitada, e que teria potencial para lhe destroçar a vida.
Mas o maior receio não seria o de encontrar uma criatura detestável, mas de perceber nela um espelho. Então, com uma indiferença hostil seguem estes pobres seres pela vida, ignorando os sinais que pavimentam seu caminho. Os sinais são sempre como espelhos que dizem muitas coisas sobre nós: quando se julga o feio, julga-se o que se tem de feio e quando se julga o belo, julga-se o que se tem de belo.
Então, demonstrar coragem de encarar a horrível criatura pode ser muito perigoso e ameaçador; mais ameaçador por afastar os que são indiferentes a ela; mais perigoso por torná-lo corajoso, porque no calor que a coragem inspira habita um espantoso paradoxo. Muitos, senão a maioria, utiliza a concretização de suas atitudes como forma de desfazer-se delas. Poucos teriam a coragem de assumi-las para sempre, para a qualquer momento em que se voltasse a elas em pleno julgamento, correr o risco de encontrar em suas verdadeiras origens alguma secreção daquelas que já tivesse julgado por si como execrável.
Seria a vaidade produto da busca por algo que esconda essa profunda miséria? De uma intenção de ocultar o canal por onde expele a sua secreta gosma monstruosa, produto silencioso e nocivo de suas atividades? Que quando penetra na intimidade do ser, faz ruína de sua alma. E então se servir dela como forma de desviar o destino desses detritos para que não retornem, forma muito delicada: ilusória. Eles sempre retornarão, ou nem mesmo deixarão sua origem. Bastaria a noção de já se encontrar cercado, e coragem para através dos sinais ser obrigado a encarar suas influências.
Se a coragem se opõe tanto ao modo de vida neste sistema, é porque a covardia governa, e a arma da covardia é o medo. “O homem é condenado à liberdade”. Mas este homem, inspirado pelo medo e iludido pela segurança, foge de sua liberdade. Todo medo é medo de liberdade. O medo da pobreza é o de livrar-se da riqueza. O medo do conhecimento é de livrar-se da ignorância. O medo da doença é de livrar-se da saúde. O medo da dor é de livrar-se do prazer. O medo da solidão é de livrar-se das companhias. O medo da realidade é de livrar-se da ilusão. O medo da morte é de livrar-se da vida.

Matheus Martini


[ a busca do indivisível ]

Quando o “ser” foi dividido em razão e sensibilidade, a história da razão a partir de então, foi a história da divisão.

A busca pelo indivisível

            A ciência, como a própria palavra sugere, pode ser vontade de estar ciente: vontade de consciência, onde a razão busca a consciência assim como os sentidos buscam as sensações. O equilíbrio e a compensação dessas duas atividades entre si é capaz de gerar uma saúde de consciência, assim como do corpo. Mas a elevação da razão e sua hipertrofia levam à natural escassez de um sentido que a razão não tem. Isso porque não é próprio da razão possuir em si um sentido, como o olho que vê, como a pele que sente, a língua que prova; e isso é óbvio, pois a busca de sentidos na razão é completamente vã na medida em que, como próprio resultado da atrofia do mundo sensorial em detrimento da tirania racional, a razão alcança um estado em que acredita ser capaz de “sentir” em si mesma a própria existência.
Na história da divisão, o homem dividiu os objetos em átomos, a totalidade em palavras, infinito em números, eternidade em horas: criou a complexidade. Refiro-me à complexidade como um efeito resultante da disparidade, da disfunção, deste desequilíbrio entre as propriedades humanas (razão e sentido) onde toda criação da razão só encontra utilidade ao que concerne à razão. Situação tal que o homem nunca busca verdadeiramente o esclarecimento sensível das suas questões, porque ou está, ou se finge cego, surdo e com toda a pele coberta por um tecido morto, chamado razão. E assim sempre em vez de esclarecer, cria anexos e emendas com o propósito de contornar os problemas (sem perceber nisso a criação de novos). A razão que se esqueceu dos sentidos é essa que quer anteceder o próprio sentido prevendo o que possa sentir após uma conquista, mas muitas vezes – senão toda vez – se percebe equivocada quando os sentidos não correspondem às previsões. Por que não a carne viva? Mais penosa que a dor da ferida aberta, é a tentativa de conseguir, na diluição de toda dor, o esboço de um sorriso vazio.
Nesse meio, até a apaixonante arte surge necessariamente inevitável, nos atinge através dos sentidos de forma tão profundamente radical, mas ainda pontual. Pois após experiências artísticas sensíveis, alguns se perdem nelas, e muitos não freqüentam as sensações por muito tempo, ou submetem toda sensibilidade a uma minuciosa descrição racional, causando a perda do sentido. E sinto que esse impacto é assim tão forte porque é oposto ao que nos domina na maior parte do tempo (razão) e subsiste como pequenos mistérios que permeiam toda nossa vida em forma de atitudes e sensações que parecem inexplicáveis. Mas não há sensações para além da razão, porque todos os sentimentos encontram seu universo entre a razão e os sentidos.
Neste instante, peço que pare e lembre-se de sua sensibilidade; toque seu próprio corpo e perceba o corpo e o toque, observe o movimento de sua mão e lembre-se de que você o desejou, feche os olhos e sinta que percebe o próprio movimento através da visão e do tato. Se dê a liberdade (que de fato, você tem) de experimentar neste instante, uma metáfora tendo a fruta como objeto. Considere que a razão constitui o caroço (núcleo) e a sensibilidade constitui a casca e a carne da fruta. Deste modo, somente a casca e a carne entram em contato com a realidade, e o caroço recebe esse contato através da carne da fruta. O caroço é tão duro que parece indestrutível; não se afeta com a realidade enquanto a pele se arranha, a carne se amassa.
Na essência da metáfora, se o caroço pensasse em existir sem a carne e a casca, ele estaria negando todo seu contato com a realidade, e daria atenção somente à sua rigidez, e nada a toda sua superfície envolvente. Imagine então a razão; seus pensamentos e sua consciência, mas sem a audição, sem a visão, sem o tato, sem o paladar, sem o olfato: de que se valeriam os pensamentos e a consciência? Seriam ainda assim, consciência e pensamento? Não saberia de nada sobre o lado externo, ou até mesmo sobre o interno! E o que seria interno, sem externo?
Esse pensamento não pode parar por aqui porque devo ser fiel à mesma liberdade de pensamento que me trouxe até aqui, e penso sobre o inverso: o que seria do externo sem o interno? O que seria de todas as sensações, os sentidos, sem a razão? O que seria do som, da imagem, das texturas, dos sabores, do cheiro, sem o pensamento que percebe estas sensações? Talvez fosse como um espetáculo sem platéia, assim como o inverso (o que se assemelha ao que vivemos) seria uma platéia, sem espetáculo algum. Uma espera sem nada a ser esperado, porque na realidade o espetáculo é muito mais sutil do que parece, porque como tudo que é sutil, necessita de nós para que seja completo.
A existência se mostra como algo muito sutil: muito carente. Antes de qualquer coisa, carente de nós mesmos. E não devo seguir apenas pela sensibilidade, assim como não devo seguir apenas pela razão, devo seguir apenas pelo equilíbrio.

Matheus Martini


[ fragmentação ]

Galeria de Arte - Ilustração de M.C. Escher

A fragmentação compromete a visão do todo. A separação das tarefas e das funções da noção de totalidade dá à tarefa um sentido que ela não tem, um sentido vazio. Quando se dá à fruta um sentido além da semente e do alimento, sem contemplar a árvore, deixa de ser uma fruta, pois ignora-se a fome, ignora-se a árvore: no caminho da definição da palavra, o objeto perde sua essência.

Matheus Martini


[ prima-vera ]

Shiva e Parva - Milo Manara

Brotam flores nos teus olhos nesta estação derradeira. Derramo sobre ti minha alma, pois encontro em ti motivação.

Mulher, espécie que me deu a luz, o amor, o desprezo e o corpo, fazendo-me aprender, no calor das tuas entranhas, talvez o motivo mais absoluto, carnal, e elevado da existência, de uma simplicidade e delicadeza quase imperceptíveis.

A vida, inexplicável e frustrante como pode parecer – com desilusões, mergulhos no vazio de alguns sentimentos, e com a difícil digestão de antigos ressentimentos – atinge um clímax: um ponto máximo num momento de êxtase, quando os objetos ao redor tornam-se abstratos e perdem sua forma e só resta em nosso prazer, toda a paz e paixão de que o mundo carece.

Você, que é capaz de gerar do nosso suor, uma obra e causa prima, uma ode à vida humana, que é capaz de guardar no íntimo do ventre, nosso instinto e propósito.

Pode ser simples assim, e todo o resto:

Pura fantasia – pura fantasia racional…

 

 Matheus Martini


[ sobre livre-arbítrio ]

Salvador Dali – A Caravela

Salvador Dali – A Caravela

O que podemos observar por livre-arbítrio? Apenas uma aversão à predestinação – a favor da decisão pelo próprio destino -, um mero voto contra ideais calvinistas? Ou uma questão de ser capaz de decidir agir sem que esta ação sofra influência de fatos antecedentes?

Se pensarmos em predestinação e livre-arbítrio, veremos logo que entra em questão a existência de Deus, pois necessariamente é atribuída a ele a decisão dos destinos de todos. E considerando a existência de Deus, poderia ele ter esse poder ou não, o que é impossível de ser constatado através da experiência. Ainda sob esta ótica, considerando que Deus não exista, a hipótese de predestinação se torna ridícula e fora de cogitação.

No outro caso, tomando como referência o existencialismo de Sartre, a atitude, a ação com um fim tem, por definição, um motivo. Se considerarmos que tudo ja está pronto, determinado e não acreditarmos em uma possibilidade de mudança, conseqüentemente, perde-se o motivo para qualquer ação. Em Sartre, o homem é condenado a liberdade – possui livre-arbítrio -, e suas decisões implicam em um compromisso, onde deverão ser assumidas suas respectivas responsabilidades e conseqüências. No exemplo dado por Sartre em uma entrevista, ele diz: “Se preparo certo tipo de manifestação para tal problema político, estou obrigado a tomar parte em uma manifestação análoga para um problema que repete em sua essência, o mesmo problema fundamental”.

Sartre também descreve o fenômeno do prático-inerte, onde o indivíduo já chega em um mundo “pronto e determinado” pelo seu passado e história. Escolhas que outros fizeram, e fins que outros atingiram – como em acontecimentos importantes da história da humanidade, como também da ciência -, serão geradores de punhados de possíveis escolhas prontas, isso se observa na educação básica e no curso superior. Já existe então um condicionamento ao modo de vida desenvolvido antes de sua existência como ser. Suas escolhas, portanto, serão de certo modo condicionadas por sua situação, e não puramente escolhidas por seu eu “Em-si”. Inicia-se então o processo de alienação do ser, pelo seu eu “Para-os-outros”. O homem alienado está fora de si, e não realiza seus próprios fins e projetos, mas o que é almejado por outros.

“Não somos livres para abdicar de nossa liberdade, nem para gozar de sua máxima plenitude”.

 

Matheus Martini


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